Os últimos burros da freguesia de Assentis

Os últimos burros da freguesia de Assentis
 

O burro é o meu tractor !

 

Aos 77 anos, Justina de Jesus Santos, natural e residente em Beselga de Cima, ainda utiliza o seu burro para os mais diversos serviços. Sempre que precisa de ir à fazenda ou deslocar-se a algum lado, ainda utiliza muitas vezes o burro como meio de transporte: “Todas as vezes que vou à fazenda levo o burro engatado à carroça”, refere Justina.

Ainda se recorda do dia que juntamente com o marido, José Rodrigues Valeiro (já falecido) foram de lambreta a Árgea comprar o burrito. “O meu marido nem o queria comprar por ele ser tão pequeno”, recorda Justina Santos. O animal com pouco mais de um ano, foi comprado por 55 mil escudos e acabou por crescer em Beselga de Cima. E não foi fácil habituá-lo à carroça. “Por tudo e por nada, o burro deitava-se. Mas quando começou a levar uns açoites, nunca mais se sentou”, recorda Justina.

“O burro nunca se ajeitou para levar albarda e seirões, pelo que sempre utilizámos o burro para puxar a carroça”, diz a proprietária.

É um burro esperto, mansinho e não é teimoso. “Se ele fosse bravo eu já não podia lidar com ele, mas ele é castrado o que o torna mais manso”, refere Justina.

“O burro é o meu tractor. Ainda ontem fui às Moreiras Grandes com ele engatado à carroça.”

O burro habita um palheiro anexo à habitação de Justina Santos. Ao abrir o portão, o burro saúda a dona zurrando. Devido à escuridão do palheiro foi necessário trazer o animal até à rua para pousar para a máquina fotográfica do «Fruto da Notícia». Colocado o cabresto, o burrito saiu do palheiro e foi conduzido pela arreata até à rua. É um burro branco e de cascos grossos, pelo que nunca foi necessário ir ao ferrador.

Quanto a fugas, o burro já fugiu uma vez, quando regressava da horta e não quis entrar no palheiro.

Justina nunca o “baptizou”, e apenas o trata por “burrito”. “Ele até gosta que lhe chamemos de burro”, garante Justina.

 

 

O burro Gaiato

 

Virgílio Simões Rosa tem 67 anos e reside em Outeiro Grande. Há uns anos atrás, seguia na carroça puxada por uma burrita, quando numa ladeira a burra teve um ataque e caiu morta no chão. Para substituir a perda, decidiu há cerca de 7 anos, comprar um burro, o qual é hoje o único da espécie a residir na localidade. Veio dos lados da Quinta do Marquês e custou 79 mil escudos juntamente com carroça e respectivos arreios. “Não sei a idade do burro, mas deve ter pouco mais de 10 anos”, refere Virgílio. É utilizado com a carroça para efectuar essencialmente o transporte de lenha. Quanto a despesas com o “Gaiato”, nome pelo qual é tratado, Virgílio diz que não dá muita despesa: “Anda a pastar todo o dia e à noite dou-lhe palha e um balde com água”. O “Gaiato” é castrado, e como qualidades, é manso e não morde.

Também o “Gaiato” já sabe o que é viver em liberdade: “Um dia fugiu em direcção à localidade da Mata, atravessando a estrada principal e só parou perto da Srª de Lurdes em Outeiro Grande.

 

Só há um burro não castrado na freguesia

 

Um vasto terreno cercado acolhe alguns animais domésticos, entre os quais se destaca um burro. Pedro Cancela, o proprietário a residir em Assentis desconhece a idade do animal, que comprou há 4 anos a um senhor de Moreiras Grandes. Como o anterior dono do burro, não tinha pastagens suficientes para o animal, Pedro Cancela aceitou ficar com o burro pelo valor de cem euros.

“Não lhe dou grande trato. Dou-lhe palha e ele anda por aí à vontade”, refere Pedro Cancela. O burro não tem nome. “ É um animal de estimação, um fidalgo e é malino. Por vezes mando-o embora mas ele não obedece…”, referiu ainda Pedro Cancela .

O burro que vive em liberdade, não precisa de trabalhar e é o único burro da freguesia de Assentis que não é castrado.

 

 

Uma burrita esperta

 

Não tem nome nem idade conhecida. A sua proprietária chama-se Lucinda, mas há mais de 2 anos que a burra, com cerca de 20 anos ajuda João de Sousa Ferreira, irmão de Lucinda, em alguns trabalhos agrícolas.

“Eu tive uma mula, mas ela morreu. Comecei a pedir à Lucinda a burrita para me auxiliar em alguns fretes na fazenda. Agora já cá está há mais de 2 anos.”

João Ferreira utiliza a burra para puxar a carroça com a qual transporta estrume para a fazenda, trás lenha, ervas para as cabras e para a própria burrita.

Lucinda utilizava a burra com a albarda e os seirões, mas agora, João Ferreira de 78 anos só a utiliza para puxar a carroça.

Naquela manhã, a “burrita”, nome pelo qual o sr. João a trata, já tinha comido “três punhados de passas”. “Agora está ali a pastar todo o dia na fazenda onde tem erva e pasto e pode escolher à vontade o que quer comer”, refere João Ferreira.

“É uma burra um bocado teimosa, mas não é trouxa. Às vezes vai por aí além por uma estrada e se é sítio onde ela já foi, nem que seja longe de casa, fixa o caminho. É uma burra esperta”, garante João Ferreira, habitante do Casal da Velha, Moreiras Pequenas.

Quando está na fazenda, João Ferreira tem que prender a burrita e andar sempre com a vista em cima dela. “Quando está perto de mim não a prendo, mas mal lhe tiro os olhos de cima, já ela se foi embora. Por isso é que muitas vezes tive que ir apanhá-la ao caminho”, justifica João Ferreira.

 

 

A burra Joana

 

Chama-se Joana, tem 11 anos e habita em Carvalhal do Pombo. A burra Joana foi comprada há 4 anos juntamente com carroça e albarda por Abel do Jogo Vieira, a um senhor do Pedrógão. A alimentação da Joana é essencialmente à base de palha e de vez em quando um pouco de ração. Abel Vieira, de 47 anos refere que “é uma burra muito mansinha, mas teimosa. É sempre difícil levá-la pela primeira vez a qualquer lado”.

Desde que veio do Pedrógão nunca mais puxou a carroça. Agora, vive numa cerca e tem liberdade para correr e espojar-se à vontade.

A Joana já engravidou, mas a cria morreu à nascença.

 

O burro despertador

 

João Lopes Soares de 78 anos e Alzira de Sousa Lopes de 74 residem no Casal das Pimenteiras e compraram há cerca de 3 anos um burro. João Soares nunca lhe atribuiu um nome, mas a esposa Alzira por vezes chama o burro de Chico ou até de Januário.

É um animal com cerca de 12 anos de idade e que ainda ajuda os donos. “Ainda vai à fazenda com as cangalhas buscar uma carga de lenha ou levar esterco nos seirões”, explica João Soares.

Ultimamente tem sido mais a esposa a acompanhar o burro, porque João Soares encontra-se a recuperar de uma queda ocorrida à 3 meses durante a apanha da azeitona que lhe fracturou uma perna.

“É um burro muito mansinho” refere João Soares, mas a esposa é que não se atreve a colocar-se em cima do burro, depois do susto que apanhou com uma burra que teve há alguns anos.

“Ele nem se mexe quando o estamos a carregar com qualquer peso”, referiu ainda o dono.

É um burro branco que come essencialmente palha e um pouco de ração diária e milho.

O burro saiu do palheiro para pousar para o «Fruto da Notícia» e antes de regressar ao mesmo local, não hesitou em espojar-se no chão, mesmo sendo de cimento.

João Soares tem ainda uma mula que puxa a carroça. Chama-se Carriça e já foi solicitada a participar por vários anos na Festa de S. Brás em Vila do Paço, durante o cortejo das carroças com a oferta de vinho e tremoços.

O burro é o despertador dos donos. Logo de manhãzinha, pelas 6h30m ainda com os donos na cama, o burro começa a zurrar, pedindo comida.”E não pára de zurrar enquanto não formos dar-lhe comida”, refere João Soares. Ao final do dia, o burro volta a zurrar, pedindo mais comida. É que não convém ir para a cama de barriga vazia. Afinal não é burro de todo…

 

 

Só lhe falta é falar!…

 

Há pouco mais de 5 anos, foi encontrado no Casal das Pimenteiras um burro desconhecido. Os residentes procuraram saber nas redondezas quem seria o dono do burro e uma das hipóteses que surgiu foi contactar Eurico da Conceição Brito, residente em Moreiras Grandes, dado que à altura possuía um animal da mesma espécie.

“Uma senhora telefonou-me a perguntar se me tinha faltado uma burra que eu tinha. Respondi-lhe que não, que a minha burra se encontrava no curral”, começou por contar Eurico Brito.

“Mas passado um bocado, lembrei-me de pegar no carro juntamente com um rapaz e fomos lá ver o que é que se passava. Vi o burro a andar e a brincar de um lado para o outro e verifiquei que era um burro e não uma burra, como a senhora tinha dito. Abri a porta traseira da carrinha e puxei-o para cima e ele subiu sem qualquer esforço. E aqui ficou preso junto aos eucaliptos à beira da estrada para no caso de aparecer o dono não dizer que eu o escondi. Aqui ficou vários dias e como não apareceu ninguém a reclamar o burro, comecei a arrecadar o burro no curral. Não o comprei nem o roubei”, explicou Eurico Brito.

“Mais tarde veio a minha casa um senhor da Chancelaria arranjar uns arreios antigos e logo reconheceu o burro”. Disse-me ele: “Já sei de quem é o burro! É de um velhote que mora na Serra a caminha de Fátima. Eu conheço bem o burro. Mas se ele o mandou embora é porque alguma coisa não gostou no burro”.

Eurico Brito de 69 anos já comprou 3 carroças para o burro puxar. E pelo Carnaval, o burrito sai à rua juntamente com o dono para brincar ao Carnaval. “Estou muito satisfeito com o burro. Já cá vieram muitas pessoas para o comprar mas não se vende. Não me quero desfazer dele”, referiu ainda Eurico Brito.

“É um burro castrado e que hoje deve ter entre 15 a 20 anos. Não é teimoso, é muito mansinho e puxa muito bem a carroça. Quando o mando parar ou andar ele ouve bem e é obediente”, referiu o dono. Actualmente o burro já tem “um casaco”, ou seja uma albarda.

O burro até já foi emprestado à Paróquia de Assentis para encenação do Domingo de Ramos, efectuando o transporte do padre desde perto do cemitério até à Igreja, simbolizando a entrada de Jesus em Jerusalém pela altura da Páscoa.

“Comecei a chamar-lhe Chico. É um animal que só lhe falta é falar”, refere Eurico. O mesmo garante a esposa do senhor Eurico, que durante a sessão fotográfica do Chico para o «Fruto da Notícia» apareceu com várias laranjas. O Chico deliciou-se com o mimo, saboreando as laranjas comendo cascas e tudo. Ele até gosta de bananas…

 

 

Um burro obediente

 

Há vários anos que já não existem burros na localidade de Outeiro Pequeno. No entanto, ainda hoje os mais idosos da aldeia têm na memória, a lembrança de um pequeno burro pertencente a Henrique Frango e à esposa Soledade que era obediente. Existiram muitos burros na aldeia, mas aquele era fora do vulgar.

Na verdade, bastava aparelhar o burro, colocar-lhe as cangalhas com dois cântaros para a água e dizer-lhe: “Vai ao Freixial buscar água!..” E o burro lá ia sozinho andando cerca de um quilómetro pelo Canal, um caminho estreito, até chegar ao local indicado – o Freixial. Aí já o espera alguém que enchia os cântaros, colocava-os cheios nas cangalhas e ordenada ao burro para ir para casa. E ele regressava sozinho e se fosse preciso, caso lhe fosse ordenado, fazia o mesmo percurso várias vezes sem a necessidade de nenhum condutor. E caso para dizer que já naquele tempo havia burros telecomandados…

 

 

A burra Jacinta

 

Cândido Gonçalves de 45 anos reside em Moreiras Grandes e adquiriu acerca de um ano uma burra por 50 euros a José António de Outeiro Grande. A burra chama-se Jacinta e tem cerca de 8 anos. É um animal dócil, manso e que vive em liberdade numa vasta propriedade cercada. O objectivo é preservar a espécie pelo que o seu dono está a tentar arranjar um macho para fazer procriação.

A burra anda em liberdade mas é bastante útil. A sua presença na propriedade, juntamente com outros animais, são o garante de por altura do Verão, o terreno estar limpo para impedir os fogos, sem que para tal seja necessário recorrer à mão-de-obra para limpar o terreno. Até o espaço ocupado pelo mato fica mais limpo.

Para Cândido Gonçalves, ter uma burra é como ter um cão. É um animal de companhia e quando se gosta de um animal e este é estimado, acaba por fazer parte integral do agregado familiar. Entretanto, a Jacinta vai ter a companhia de uma outra burra de 12 anos, adquirida recentemente em Alcanede.

 

Um burro chamado autarca

 

Nas encostas a poente de Carvalhal do Pombo, Agostinho Domingos Costa, de 74 anos, conduziu o «Fruto da Notícia» até ao local onde o burro se encontrava a pastar naquela manhã soalheira de Janeiro. Também o cavalo e a égua andavam ali perto, mas todos eles inquietos e sobressaltados com os estrondos dos tiros aos tordos que ali mesmo se faziam ouvir.

Agostinho Domingos Costa reside no Casal Courela em Carvalhal do Pombo e possui o burro há mais de um ano. Veio da Meixieira, onde o comprou já crescido mas com idade desconhecida. No entanto, Agostinho garante que o burro ainda é novo.

Agostinho Costa nunca colocou a albarda no burro, preferindo antes que ele puxe a carroça.

É um burro que gosta de comer feno e verduras. As despesas são poucas porque Agostinho Costa coloca-o a pastar em várias fazendas nas encostas da aldeia cujos proprietários até agradecem. É que os animais sempre vão limpando as fazendas.

Quanto ao comportamento do burro, a quem Agostinho baptizou de “Autarca”, refere que “é muito esperto, mas também muito malino. Tanto se torna mansinho como é maluquinho, até gosta de dar “beijinhos”, pelo que é preciso ter cuidado com ele…” aconselha o dono.

E quanto a fugas, Agostinho refere que o burro já lhe fugiu mas “espera sempre por mim. Vai à frente e depois espera para não se perder de mim.”

Agostinho tem o burro há pouco mais de um ano, mas as peripécias com o Autarca já são várias:

“Quando o meti à carroça pela primeira vez, acho que ele não estava habituado. Travei a carroça e engateio-o. Ao destravar a carroça ele atirou logo uma grande corrida. Uma outra vez foi sozinho pela estrada da Ricoxina até à Chancelaria sempre pela berma da estrada.

Na localidade da Rexaldia, deixei-o preso perto da capela enquanto fui beber um café. As mulheres estavam todas a olhar para o burro. Mal o desatei, ele abalou a fugir sozinho com a carroça em direcção ao Carvalhal do Pombo. Foi sempre pela direita, desviando-se do trânsito. É inteligente o burro!”, confessa Agostinho Costa.

E em Casais da Igreja, o Autarca encontrou uma velha e começou a zurrar-lhe. E eu procurando acalmá-lo disse-lhe: “Deixa a velha que ela ainda é menor…”.

Na mesma localidade, o burro olhou para o cemitério, onde estava a decorrer um enterro. E logo o burro começou a zurrar, fazendo o pranto ao morto. Depois também zurrou ao padre, e este até comentou que o burro tinha a voz afinada”.

E a voz do Autarca foi decisiva na compra que Agostinho Costa efectuou. “Ele tem uma voz muito forte e foi por isso que eu o comprei! Gostei da voz dele, é um fadista…”

A sua voz é tão potente que assusta qualquer um. “Uma vez seguia na carroça e ele viu uma rapariga dentro de um carro e logo começou a zurrar à rapariga. Ela assustou-se”.

“Uma outra vez em Casais da Igreja zurrou a uma mulher e ela começou a fugir”.

O burro ficou mais manso desde que foi castrado. “Ele era terrível pelas burras”, diz Agostinho, que passou a ter mais cuidado com o burro, a ponto de nunca mais se colocar em cima da carroça.

“ Ele não dá coices, mas já me mandou uma vez com as patas e já me mandou a boca. Quando ele começa a arriçar as orelhas é perigoso”, esclareceu Agostinho Costa.

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