Água da Fonte Nova em Outeiro Grande é imprópria para consumo

 Água da Fonte Nova em Outeiro Grande é imprópria para consumo
 

Quem passa junto a uma fonte num dia de calor, é tentado a aproximar-se e saciar a sede, bebendo água. Um simples acto que poderá trazer consequências nefastas para a saúde de quem a bebe. O alerta é muitas vezes veiculado pelas autoridades de saúde, uma vez que a grande maioria das águas das fontes e poços é imprópria para consumo humano, e com elevados riscos para a saúde.

Uma das fontes existentes na freguesia de Assentis está situada em Outeiro Grande e é chamada de “Fonte Nova”.

A incerteza quanto à qualidade da água daquela fonte, foi levantada no final da última Assembleia de Freguesia de Assentis, realizada no final de Junho (Ver Caixa na Página 3). Carlos Manuel Oliveira de Outeiro Grande, membro da Assembleia pelo PS, mostrou-se preocupado por nada se saber quanto à qualidade da água, porque como a fonte está à beira da estrada qualquer pessoa é tentado a saciar a sede.

O «Fruto da Notícia» foi averiguar a situação.

 

Situada junto à estrada, em Outeiro Grande, a caminho do Paço, a “Fonte Nova” apresenta-se pintada cor de tijolo e as arestas laterais estão embutidas de pedras. A fonte é alimentada por um poço particular que se encontra a cerca de 400 m do local e tem água durante todo o ano.

O poço não é tapado e à sua volta crescem ervas. Apesar de ter bordas, nada é garantido quanto á possível queda de algum animal. E já não era a primeira vez! Ainda no ano transacto foi detectado a presença de um animal morto no seu interior, tendo o poço sido sujeito a limpeza. O mesmo poço alimenta também desde há alguns anos uma represa de água construída a escassos metros do poço na propriedade abaixo.

 

De modo a esclarecer as dúvidas, a 17 de Julho, o «Fruto da Notícia» procedeu à recolha da amostra de água da Fonte Nova. Para o efeito, foram utilizados dois recipientes previamente esterilizados os quais foram fornecidos pela Clinova – Centro de Diagnóstico Laboratorial de Torres Novas, Lda. Foram utilizados os devidos procedimentos para a colheita: Os recipientes embalados em sacos de plástico só foram abertos no acto da colheita para evitar a ocorrência de contaminações. Antes da recolha da água, a torneira da fonte foi aberta e deixámos correr a água em jacto forte, durante algum tempo, de modo a permitir a renovação da água retida na canalização. Depois de recolhida a água, os recipientes foram fechados e entregues no laboratório após 30 minutos.

Depois, foi só aguardar os resultados da análise. Quase um mês depois, o resultado não deixa dúvidas: A água que corre da torneira na Fonte Nova está inquinada e é imprópria para consumo humano.

Dos seis parâmetros analisados, nenhum respeita os valores normais de referência.

Quanto à caracterização físico-química, a amostra de água apresenta na condutividade (20º C) por electrometria o valor de 710 mcs/cm quando o valor máximo recomendado é de 400. Este é um valor de norma de qualidade que deve ser respeitado e não excedido. Já a oxidabilidade (KMn04) apresenta 1 mg/L O2, quando deveria apresentar entre 2-5.

 

 

Na análise microbiológica foi efectuada a contagem de germes totais a 22ºC. Foram detectados 300 germes totais (CFU/mL), quando o valor máximo admissível é de apenas 10. Quando a água foi incubada a 37ºC foram registados 400 germes quando o valor de referência é de 100. É de registar que estes valores máximos admissíveis são imperativos e que não devem ser excedidos para a qualidade da água.

Mais grave ainda foi a detecção de coliformes totais e fecais. Foram detectados 128 coliformes totais e igual número de fecais por 100 mililitros da água analisada, quando o valor máximo admissível é de zero.

Os coliformes fecais são bactérias patogénicas que estão presentes no tracto intestinal dos animais de sangue quente, ou seja têm origem em fezes humanas ou animais. Por definição, os coliformes são bastonetes, Gram negativos, não esporulados, anaeróbios facultativos, oxidase-negativos e que crescem em condições aeróbias em meio de cultura selectivo contendo sais biliares. O seu número dá a indicação do grau de contaminação da água.

Se a presença de coliformes na água das praias provoca nos banhistas vários problemas de saúde, como doenças de pele, otites, gastroenterites ou conjuntivites, maior gravidade provoca se a água for ingerida.

A inexistência de coliformes é um dos parâmetros indicadores para efeitos da qualidade da água.

Na análise efectuada foi ainda detectada a bactéria Raoultella ornithinolytica.

As bactérias são microrganismos apenas detectáveis ao microscópio e provocam doenças, geralmente, mais graves que as provocadas por vírus.

Junto à fonte não existe qualquer referência a análises à água. Quem passa e bebe sacia a sede, mas também alimenta o organismo com bactérias fecais. É caso para dizer. “Que m… de água!”.

Fonte Nova existe há 73 anos

 

A construção da “Fonte Nova” em Outeiro Grande foi efectuada pela Câmara Municipal de Torres Novas e teve início em 1934. Um painel redondo de azulejos indica a data da sua construção: “CMTN – Melhoramentos Rurais – 1934”. Uma fonte abundante onde outrora, a população de Outeiro Grande ia buscar água para consumo. Porque para outros fins estava interdita. Assim o refere um outro painel de azulejos: “É proibido tirar água para usos industriais ou agrícolas. E prejudicar de qualquer modo os fins a que se destinam as fontes e bebedoiros”. A Fonte Nova saciou durante dezenas de anos a população de Outeiro Grande e até de Outeiro Pequeno. Em Abril de 1935 e após a construção da fonte, a população solicitou ao município a construção de lavadouros, obra que referiam ser de maior necessidade do que a fonte. “Já se encontram concluídas as obras da nossa fonte. Bom seria que a Câmara de Torres Novas, que tantos melhoramentos tem feito no concelho, levasse a efeito dentro de um curto prazo a construção dos lavadouros que são ainda de maior necessidade que a fonte. Vem agora a quadra estival em que esta falta se costuma sentir imenso” (O Almonda, 20 de Abril de 1935).

Passados 14 anos, a obra ainda não tinha sido feita: “Pedimos a quem de direito a máxima atenção sobre a construção de lavadouros, que estão fazendo enorme falta a esta população”. (O Almonda, 29 de Outubro de 1949).

Depois de muita insistência, acabaram por serem construídos na parte traseira da fonte. Um enorme tanque rectangular com cerca de 7 metros de comprimento e 2 de largura, com 23 pedras, as quais possibilitavam igual número de lavadeiras ao mesmo tempo.

Hoje, a água continua a jorrar por detrás da fonte e alimenta o grande tanque, bem como um outro mais pequeno que existe lateralmente à fonte, onde os animais saciavam (e saciam) a sede. As lavadeiras já não necessitam de ir à Fonte Nova lavar a roupa, graças às máquinas eléctricas. A água para consumo doméstico que era transportada em bilhas e cântaros com o auxílio de animais ou até mesmo à cabeça das pessoas são hoje apenas recordações.

O local é de vez em quando sujeito a limpeza por parte da Junta da Freguesia de Assentis, mas à data em que nos dirigimos ao local para a elaboração deste artigo encontramos, o espaço bastante sujo e a necessitar de limpeza. A palmeira que há anos ali se encontra, está cada vez maior e a tirar a visibilidade à bonita “Fonte Nova”.

 

O «Fruto da Notícia» questionou através de e-mail o Município de Torres Novas na tentativa de saber se a água desta fonte é sujeita a análises periódicas pela autarquia. No entanto, até ao fecho desta edição, não obtivemos qualquer esclarecimento.

 

  

 

 

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