Rexaldia recuperou a tradição de “Cantar às Almas”

Rexaldia recuperou a tradição de "Cantar às Almas"

 
 

 

 

 

 

 

 

Cantar às Almas” é um ritual com várias dezenas de anos, da localidade da Rexaldia, na freguesia da Chancelaria. É tão antiga, que os mais idosos desconhecem a data em que ela surgiu. Esteve parada durante quase 20 anos, devido à idade avançada de alguns elementos e de muitos afazeres por parte de outros. No entanto, em 2005 um grupo de 8 homens da Rexaldia recuperou novamente a tradição que já se mantém há três anos consecutivos.

 

Todos os anos, durante a época quaresmal (entre o Carnaval e a Quinta-feira Santa antes da Páscoa), o grupo visita as casas de algumas localidades, entre as quais Rexaldia, Cabeço de Soudo, Pena, Casal da Pena e Maçaroca com o objectivo de pedir para as almas. O renascer desta tradição teve boa receptividade junto das populações locais e até de alguns habitantes que residem noutras localidades dos arredores, as quais têm contactado o grupo para que este efectue a visita. Foi o que aconteceu em Casais da Igreja, onde o «Fruto da Notícia» esteve em reportagem no início da última semana da Quaresma. O casal, João Felício e Maria da Purificação gostam muito desta tradição, pelo que a seu pedido desde há 3 anos, têm a visita do grupo.

Maria da Conceição referiu ao nosso jornal que esta tradição já era usual na Pena, quando ainda era solteira. Agora todos os anos, o grupo vem a sua casa a pedido do seu marido João Felício. Eram 21 horas do dia 2 de Abril quando o grupo chegou junto da habitação do casal. Todos os membros do grupo traziam na mão um cajado, um apoio indispensável a qualquer caminhante. Já assim era antigamente, porque o cansaço tomava conta das pessoas que efectuavam caminhadas durante várias horas, a cantar e a rezar. Actualmente, o grupo só efectua as visitas à noite, mas em tempos antigos, todos os domingos da Quaresma eram preenchidos com caminhadas por muitas aldeias do concelho de Ourém. José Nuno é um dos actuais elementos do grupo que começou aos 13 anos a efectuar estas caminhadas na companhia do pai: “Todos os domingos da Quaresma, saíamos cedo de casa, agarrávamos na “bucha” (pão caseiro e chouriço magro) e lá íamos «Cantar às almas» durante todo o dia até ao anoitecer”. Várias aldeias faziam parte do itinerário: Lagoa do Furadouro, Canedo, Matas, Outeiro das Matas, Sobral, Vale do Porto, Gaiola, Ramila, Montelo, Outeiro da Pedra, Casa Velha, Macieira, Boleiros, Moitas entre muitas outras. Já eram conhecidos pelos proprietários das tabernas onde iam comer a bucha e onde lhes era oferecido alguma coisa para beberem: um jarro de vinho e sumo para os miúdos.

À noite, durante a semana, tinham ainda que percorrer as aldeias mais próximas do local da residência: Rexaldia, Carvalhal do Pombo, Cabeço de Soudo, Pena e Casal da Pena.

Para recuperarem a tradição, os elementos tiveram que reunir algumas informações, nomeadamente os versos da oração. O grupo optou por efectuar sempre a oração completa, mas antigamente também existia uma versão mais pequena, denominada de “oração oferecida” que era composta por apenas 8 estrofes.

A receptividade foi grande, e o grupo tem efectuado o esforço desde há 3 anos de manterem a tradição. O tempo é que não é muito e cada oração demora quase 8 minutos.

Chegados a cada habitação, um dos elementos bate à porta e aborda as pessoas da casa passando a informação e fazendo uma pergunta: “Tem devoção em dar esmola para as benditas almas do Purgatório?” Se a resposta é afirmativa, o proprietário da casa escolhe, entre a dispensa de oração ou a oração completa. Se dispensa a oração, o grupo apenas reza um Pai-Nosso pelas almas e a oração oferecida que é a mais curta. Se pretende ouvir a oração completa, o grupo canta 43 versos alternados por dois coros de vozes.

Quase a terminar é rezado um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e seguem-se os versos finais, que constam da oração oferecida.

Terminada a oração, o proprietário da casa oferece a esmola. Os donativos angariados destinam-se à celebração de missas para sufragar as almas do purgatório.

Após a dádiva, um dos elementos do grupo faz o agradecimento da esmola: “As benditas almas aceitam a esmola. Deus lhe acrescente os bens e a saúde”. E o proprietário da casa responde: “E a vós as passadas!”

O grupo é depois convidado a entrar na habitação para alguns momentos de convívio.

São 8 os homens que integram o grupo: Américo Moleiro, José Nuno, João Jorge, Albertino, Triguinho, Arménio Santos Marques, João Luís e o Manuel.

Triguinho, um dos elementos do grupo, refere que “todos querem continuar com a tradição, porque para além de manterem a tradição, tem havido boa receptividade junto das pessoas e o próprio acto em si ainda transmite alguns valores”.

Ano após ano, tem aumentado o número de pessoas que têm conhecimento do renascer da tradição, e são cada vez mais as que pedem para que o grupo passa pelas suas casas. “Há pessoas que por estarem a residir fora já não ouviam isto há mais de 30 anos”, conta Triguinho.

Durante o período da Quaresma, são necessários 3 a 4 dias por semana (à noite) para percorrerem o itinerário. “O tempo que dispomos para mantermos a tradição é pouco, porque a vida de hoje é uma aceleração louca”, lamenta Triguinho.

“Como cantamos a oração completa em todas as casas, em cada serão só conseguimos percorrer entre 10 a 12 habitações”.

Triguinho realça o valor desta oração: “Quem estiver com atenção a ouvi-la irá reparar que ela transmite algo a nível sentimental. Até nós que a cantamos, acabamos por sofrer um bocadinho, porque o meio é pequeno e conhecemos as pessoas, as suas dificuldades, os problemas de saúde… Estamos a partilhar coisas, valores que são do sentimento das pessoas. Tudo isto nos vem à memória enquanto estamos a cantar. Há situações por vezes muito difíceis ao vermos as pessoas com lágrimas nos olhos. A oração está tão bonita que as faz passar essas dificuldades em termos emocionais. Mas é um alívio para as pessoas, é uma oração completa e muito vivida. Para quem a Igreja lhes diz muito, e como católicos e praticantes que somos nesta missão e caminhada, chegamos à conclusão de que aquilo que aqui se diz é o percurso que levamos”.

O relógio não pára e é necessário retomar a caminhada. E dirigiram-se a casa de Manuel Moço, habitante que esteve vários anos fora e que agora que regressou, pediu que o grupo por lá passasse para “Cantar às almas”.

Sobre Fruto da Notícia

Jornal « Fruto da Notícia »
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

2 respostas a Rexaldia recuperou a tradição de “Cantar às Almas”

  1. Gilles diz:

    Que linda tradiçao ! bem haja ! eis uma razao especial para que as pessoas se encontrem a voltada oraçao colectiva , habitos antigos que nao se perde nada de os integrar-mos de novo nas nossas vidas , cada vez mais solitarias , e incrédulas … se vivesse em Portugal teria todo o gosto em pedir para passarem a minha casa … se bem que nem sequer sou desses lados qd ai estou … mas nunca se sabe??????????????? ha que transmitir para o resto do pais . abraço de fraternidade e de luz !

  2. ARTHUR ALVES DOS SANTOS diz:

    Majestoso e singelo. Gostava eu de iniciar tal tradição cá onde estou em Teresópolis, interior do Brasil. Haja quem ma ensine como cantar , e junto eu lá e cá três ou quatro
    outros para lançar raiz desse cantar para as almas benditas.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s