Festa da Aleluia em Cem Soldos

Festa da Aleluia em Cem Soldos

Um ritual com mais de 400 anos que junta centenas de pessoas
 
 

Todos os anos no domingo de Páscoa o movimento começa bem cedo na localidade de Cem Soldos, na freguesia da Madalena, concelho de Tomar. É dia de cumprir uma antiga tradição com mais de 400 anos. Ainda não eram 9 horas da manhã e já dezenas de pessoas aguardavam nos largos e nas ruas o início do ritual. É a chamada “Festa da Aleluia” também conhecida pela “Matança dos Judeus”.

Este evento é organizado por um grupo de jovens. Antigamente a organização era da responsabilidade dos rapazes que iam nesse ano à inspecção. Agora, pertence aos jovens (rapazes e raparigas) que completam 20 anos.

Vestidos de opas vermelhas, cerca de 15 jovens já se encontram preparados para a festa no largo da capela. As pessoas vão chegando, trazendo as do sexo masculino cruzes de canas ornamentadas com flores e as do sexo feminino bonitos ramos de flores que colheram no dia anterior.

Os participantes vão chegando e repousam as cruzes junto à parede exterior da capela. Há cruzes de todos os tamanhos, mas as flores amarelas predominam e são uma característica comum a todas elas. São as aleluias, símbolo da ressurreição de Jesus. As meninas transportam nas mãos ramos de flores, na maioria silvestres.

O grupo de jovens a quem cabe a organização, vai tomando anotações das cruzes e dos ramos, porque no final têm que atribuir prémios para os melhores.

Antigamente a festa era mais para as crianças, mas desde há muitos anos que toda a população participa. É o caso de um senhor com mais de 60 anos que aguardava no largo o início da festa: “Ainda há 3 anos participei com uma cruz!” responde ao nosso jornal. Questionado sobre o motivo porque as cruzes são todas feitas de canas, responde prontamente entre risos: “Quando cá cheguei já encontrei isto assim”. Um outro que se encontra ao lado, refere que é mais fácil fazer a cruz com canas.

Os minutos vão passando, e a azáfama nos largos e nas ruas da localidade aumentam. O ritual teve início às 9h30m no interior da capela dedicada a S. Sebastião, construída em 1631 e que esteve ligada ao Convento de Cristo em Tomar.

Junto ao altar, os elementos do grupo munidos de papel na mão, leram um texto alusivo à ressurreição de Jesus:

“Há pouco menos de 2000 anos um pequeno grupo de pessoas começou a difundir uma notícia que haveria de abalar o mundo. Jesus ressuscitou! Faziam-no com alegria de quem tinham ultrapassado um duro impasse, o choque do fracasso aparente e paralisado provocado pela morte do condenado à cruz. Faziam-no com a mesma emoção das mulheres que, na manhã daquele domingo após um longo sábado tinham ido ao túmulo para perfumar um cadáver e encontraram um túmulo vazio. Faziam-no com convicção de quem não precisa de dar provas daquilo que diz. A única prova que davam era um anúncio infatigável e destemido de que Jesus estava vivo. Faziam-no com a juventude de quem descobre que um segredo acaba de ser revelado e que esse segredo é importante para a vida do mundo. Foi o início da boa notícia de Jesus de Nazaré. Faziam-no com o espírito da ressurreição. Hoje a boa notícia chegou até nós. É hora de festa e alegria. É hora de ressurreição. É o Aleluia. Hoje a boa notícia está nas nossas mãos, nas mãos da Igreja. Iremos deixá-la perder? Iremos esquecê-la? Ou seremos capazes de anunciá-la com a mesma alegria, a mesma emoção, a mesma convicção e a mesma juventude com que fizeram os primeiros cristãos? É a Páscoa! Jesus ressuscitou! Aleluia!”

As pessoas cantaram o cântico “Rainha dos Céus alegrai-vos” a que se seguiu uma pequena oração: “Oremos. Ó Deus que alegraste o mundo com a ressurreição de Jesus Cristo, concedei-nos que com o auxílio da Virgem Maria alcancemos as alegrias da vida eterna. Ámen.”

O sino da capela começou a tocar e os jovens de opas vermelhas foram saindo para a rua, munidos da cruz de Cristo e de campainhas. Atrás seguiu a população, levando nas mãos as cruzes e os ramos de flores matizados.

“Aleluia! Aleluia! Já ressuscitou o Nosso Senhor!”, proclamavam em voz alta todos os participantes, à medida que o cortejo avançava em passo largo, porque a localidade é grande. É uma caminhada de cerca de 90 minutos que percorre todas as ruas em alta gritaria a anunciar a ressurreição de Jesus.

Muitas outras pessoas aguardam junto às suas habitações pela passagem do cortejo.

Esta tradição não é aprovada pela Igreja, porque é em simultâneo uma festa religiosa e pagã. Tempos houve em que um padre tentou impedir os participantes de utilizarem a capela para a realização deste evento, mas sem sucesso, conforme nos contou um interveniente na situação: “Ele trancou as portas da capela, mas não valeu a pena porque escavacámos aquilo tudo”.

Uma outra participante responde que esta festa tem ritos cristãos: “Cantamos o cântico ‘Rainha dos Céus alegrai-vos ‘ apropriado para esta época, ajoelhamo-nos ao pé do cemitério, nos cruzamentos, portanto não é só pagã”. Uma outra refere ainda: “ o significado de as pessoas percorrerem as ruas está relacionado com o que fizeram as mulheres na manhã de domingo quando chegaram junto ao sepulcro de Jesus e não o encontraram. Então correram apressadamente a anunciar aos discípulos que Jesus ressuscitou.”

Os participantes utilizam a capela, os cânticos são religiosos e as próprias cruzes são símbolos cristãos.

Terminado o cortejo, entraram de novo na capela, entoaram cânticos e escolheram a melhor cruz e o ramo mais bem bonito. Estes foram guardados no interior da capela para serem levados à tarde em cortejo para o cemitério e colocados junto das sepulturas.

Terminada a escolha da cruz e do ramo, segue-se o momento alto deste ritual, que tem lugar no exterior da capela. É um acto pagão em que a maioria dos participantes, inicia a destruição na escadaria da capela, de todas as cruzes e ramos que até então haviam acarinhado e que nessa ocasião sacrificam alegadamente em honra da ressurreição de Cristo. É este o acto que é denominado de “Matança dos judeus”.

Cem Soldos

 

Duas são as tradições acerca  do nome dado à povoação.

A primeira diz-nos que quando os moiros ainda estavam senhores do sul da Península, os cristãos tinham entre a sua linha de fortificações constituída pelos castelos de Tomar, Ourém e Leiria, pequenos núcleos militares, formados por postos de cem homens aos quais periodicamente se distribuíam cem soldos. Um destes postos foi a origem da actual povoação.

A outra tradição relata que o nome da aldeia viria do facto de ter o seu princípio numa quinta que pertencia aos Cavaleiros de Cristo, do Convento de Tomar, aos quais pagava cem soldos de renda.

 

In “Ribatejo lendário e Pitoresco”- Fernando Câncio, 1946

As pessoas atiram repetidas vezes as cruzes e os ramos contra a escadaria como se estivessem a espancar alguém. Noutros tempos as pessoas gritavam mesmo “morte aos judeus”.

Existem várias teorias para este acto, uma das quais refere que ao matar os judeus se está a castigar os mesmos pela crucificação de Jesus.

Aparentemente, esta persistente tradição, poderá estar relacionada com uma das acusações proferidas contra os templários, porque renegavam a cruz católica, pois segundo consta, os templários não acreditavam que Jesus tivesse sido posto na cruz. Convém lembrar que a localidade de Cem Soldos era uma comenda templária.

O «Fruto da Notícia» encontrou um livro com 60 anos, “Ribatejo Lendário e Pitoresco” onde é referida esta tradição: “Cem Soldos é uma pitoresca povoação do concelho de Tomar, cheio de tradição, onde ainda é costume os rapazes fazerem a “Festa dos Ramos” e a “Matança dos Judeus”.

A “Festa dos Ramos” consiste em andarem pelas ruas do lugar a apregoar que Cristo ressuscitou e que subiu aos céus.

Na “Matança dos Judeus” colocam flores no adro da igreja e, depois, à pedrada, tratam de as destruir, como se estivessem a atirar a judeus, entre gritos e chufas que causam riso aos assistentes, que costumam ser numerosos, e que aplaudem aqueles dos garotos que se revelam com melhor pontaria.

 

A “Festa da Aleluia” continuou à tarde com a romagem ao cemitério. Uma vez mais, o ritual iniciou-se no interior da capela com os mesmos textos e cânticos já proferidos da parte da manhã. O número de pessoas participantes é que já era muito menor, cerca de 50. Quem não partiu a cruz e destruiu o ramo foi em romagem ao cemitério para aí as colocar junto das sepulturas de familiares. Antes porém, no interior do cemitério, o grupo de jovens leu uma leitura da bíblia alusiva à ressurreição de Cristo, rezaram pelas almas dos mortos ali sepultados e entoaram cânticos.

A festa estava concluída. E a tradição cumprida.

 
 

Cem Soldos

 

Duas são as tradições acerca  do nome dado à povoação.

A primeira diz-nos que quando os moiros ainda estavam senhores do sul da Península, os cristãos tinham entre a sua linha de fortificações constituída pelos castelos de Tomar, Ourém e Leiria, pequenos núcleos militares, formados por postos de cem homens aos quais periodicamente se distribuíam cem soldos. Um destes postos foi a origem da actual povoação.

A outra tradição relata que o nome da aldeia viria do facto de ter o seu princípio numa quinta que pertencia aos Cavaleiros de Cristo, do Convento de Tomar, aos quais pagava cem soldos de renda.

 

In “Ribatejo lendário e Pitoresco”- Fernando Câncio, 1946

 

Aleluia

(Do hebraico = louvai a Deus). Acla­­mação de alegria própria do Tem­po Pascal, mas que se prolonga ao lon­go do ano, com excepção do Tempo da Qua­resma.

A palavra Aleluia é uma transliteração da palavra hebraica הַלְּלוּיָהּ (Halləluya em hebreu padrão ou Halləlûyāh em hebreu tiberiano), que significa "Louvem! Adorem! (הַלְּלוּ) Deus (יָהּ)"; ou "Ame (הַלְּלוּ) o Senhor (יָהּ)".

Para a maioria dos cristãos, a palavra “aleluia” é uma palavra de elogio a Deus.

 A palavra também é usada popularmente no sentido de "finalmente".

 

Soldo

Soldo é uma antiga moeda romana de ouro criada por Constantino em 309 d.C, circulou no Império Romano até ao século X d.C.

A palavra soldo também significa a remuneração por serviços militares. Tem origem no nome da moeda romana, com a qual os soldados romanos eram pagos.

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