Nem Tudo o Vento Levou…

Falar de moinhos é falar da história, da evolução, da sociedade, da cultura e da vida do Homem. Actualmente, falar de moinhos de vento, será talvez falar de peças moribundas, do fim das coisas… que por terem sido destronadas na sua eficiência por outras mais rentáveis, estarão já hoje a passar para o domínio da arqueologia.

O «Fruto da Notícia» apresenta nesta edição uma grande reportagem, a qual esperamos que contribua para uma melhor compreensão e importância que os moinhos de vento tiveram na nossa região.

A história poderia começar como tradicionalmente começam as histórias de encantar: – Era uma vez um moinho de vento…

 

Na colina fronteira à Serra d’Aire estendem-se em linha, há muitos anos (há quem fale em 300 anos), o terceiro maior aglomerado de moinhos de vento do nosso país. São imóveis característicos da paisagem que faz fronteira entre as freguesias de Assentis e Chancelaria, um símbolo vivo que expressa o modo de vida de uma terra que outrora foi farta e fértil. Têm um elevado interesse patrimonial e são um vestígio de uma actividade económica que durante alguns séculos marcou a vida da região.

Dada a sua antiguidade, é difícil determinar com rigor a sua origem histórica. O que sabemos é que a moagem artesanal foi determinante nesta região, e todas as populações das redondezas ali iam levar os cereais e recolher a farinha. Há algumas décadas atrás, os moleiros eram pessoas de vital importância para as gentes da região, responsáveis pelo “milagre” de transformarem os grãos em farinha que serviria para o fabrico do pão.

É na Portela da Pena, na freguesia da Chancelaria, que se encontram oito moinhos muito próximos uns dos outros. Um pouco mais afastados, e já em território da freguesia de Assentis, encontram-se mais quatro, junto à Charruada. Ao todo são 12 moinhos de vento que fazem parte integrante da paisagem da serra. O local onde estão edificados tem vários nomes, entre os quais, Portela da Cruz, Portela dos Moinhos, Portela da Pena. Quanto aos moinhos, para uns são os moinhos da Charruada e para outros os moinhos da Pena. Cessaram funções em 1965 e estiveram em ruínas e desactivados durante cerca de três décadas.

Denominados por alguns como os guardiães da serra e património raro em vias de extinção, alguém em boa hora se lembrou de os salvar do abandono em que haviam caído.

 

Em 1995 através da Associação de Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte (ADIRN) foi avançado o projecto para a recuperação de sete moinhos, todos eles localizados na freguesia da Chancelaria, com apoios comunitários no âmbito do programa Leader I. Dos moinhos que estão localizados em território de Assentis, apenas dois foram recuperados por iniciativa dos seus proprietários.

Para além da ADIRN que financiou o projecto, o Município de Torres Novas comparticipou a instalação da rede de águas e a Junta da freguesia abriu todas as estradas envolventes aos moinhos e fez a ligação à estrada nacional nº 349 entre Torres Novas e Ourém.

Quatro dos moinhos foram recuperados tão completa e fidedigna quanto possível, de modo a manterem as funções originais de moagem e os outros três, foram adaptados para alojamento rural. No entanto, 12 anos depois, apenas um dos moinhos está a ser utilizado para turismo rural. O seu proprietário, Sérgio Poupado tem uma página na Internet, através da qual dá a conhecer o seu moinho e onde se podem efectuar as marcações. Está dimensionado para duas pessoas, mas tem condições para ser utilizado por quatro. O moinho tem 3 pisos e é composto por uma cozinha equipada com frigorífico e lareira, sala de estar com sofá cama e televisão, quarto com cama de casal e WC com água quente. O preço por noite para duas pessoas é variável consoante os dias da semana e a época do ano e pode variar entre 30 a 35 euros.

Origem dos moinhos

 

Desde tempos imemoriais que o Homem sentiu a necessidade de transformar os cereais que recolhia ou cultivava, na farinha que depois daria origem a um dos alimentos base que era o pão.

Certamente que a primeira forma encontrada para transformar os grãos e sementes, numa forma mais fácil de ingerir, foi através do sistema de trituração. Para isso, bastava a utilização de duas pedras, uma fixa e outra que seria manuseada à mão por qualquer pessoa. Era um sistema totalmente manual e rudimentar, no qual podemos incluir as mós planas, assim como os seus derivados que são os almofarizes e os pilões.

Os vestígios mais antigos deste tipo de utensílios remontam às jazidas da Palestina, datadas de aproximadamente 10.000 a.C.. Contudo, existem registos da sua utilização em outros locais, tais como no Egipto, na Pérsia, na Grécia e um pouco por toda a Europa, incluindo algumas jazidas arqueológicas do período neolítico em Portugal.

Estes tipos de sistemas de trituração, continuam a ser utilizados hoje em dia, nomeadamente por  alguns povos de África.

O surgimento de pequenas mós circulares, permitiu a evolução para um sistema de mós manuais. Segundo alguns autores, este tipo de mós surgiu aproximadamente em 1000 a.C. e a sua difusão partiu da Grécia e regiões adjacentes, para alcançar a Europa em finais da era anterior e princípios da nossa era.

No nosso país, este tipo de mós foram encontradas em variadas estações arqueológicas, como por exemplo em Conímbriga. Este facto, reforça a tese de alguns autores, de que a sua introdução em Portugal se deve aos Romanos.

Com a necessidade de aumentar a produção de farinha, devido ao desenvolvimento da vida urbana, surge a necessidade de criar um novo sistema de moagem. Surgem assim as atafonas. Estes engenhos utilizam mós muito maiores e mais pesadas e passam a ser accionados por tracção animal.

O registo mais antigo que se conhece e que alude ao moinho de água de roda horizontal, encontra-se num epigrama de Antipratos de Salónica, o qual se presume date de 85 a.C.. Contudo, existem outros registos, nomeadamente arqueológicos, os quais apontam para a existência deste sistema na Dinamarca no século I a.C., e mencionado num poema na China do ano 31 da nossa era. Já relativamente ao moinho de água de roda vertical, é pela primeira vez mencionado por Vitrúvio numa obra datada de 25 a.C..

 A roda horizontal à qual se chama rodízio, é composta por um conjunto de palas dispostas radialmente, as quais recebem a impulsão do jacto de água que nelas bate.

Em Portugal, a introdução dos moinhos de água deve-se presumivelmente aos Romanos, sendo o

moinho de rodízio aquele que mais se difundiu, principalmente nas regiões do norte do país. Chamamos azenhas ao tipo de moinhos de água de roda vertical. A introdução deste tipo de moinhos em Portugal deve-se aos Árabes, havendo os primeiros registos da sua utilização desde o século X.

 

 

Origem do moinho de vento

O moinho de vento é mais recente do que o moinho de água, que já era utilizado na Grécia Clássica.

Os primeiros registos que existem sobre os moinhos de vento, dizem respeito a um tipo de engenho de roda de vento horizontal, datados do século X e situados em Seistan, região situada na fronteira entre o actual Irão e o Afeganistão. Contudo e segundo alguns autores, a sua existência pode já remontar ao século VII d.c. e com origem na própria Pérsia.

Difundiu-se na Europa, durante a Idade Média, talvez pelos séculos XII/XIII, embora a sua generalização só tenha acontecido nos finais da época medieval concretamente a partir do século XV.

Em Portugal, a primeira menção encontra-se num documento datado de 1182, o qual refere a existência de um moinho de vento na região de Lisboa. Contudo, pode-se afirmar que estes já existiam cerca do ano 1000 da nossa era, no território que é hoje Portugal. Durante muito tempo, a sua existência constitui uma raridade no território nacional, onde predominavam os moinhos de água. As características do moinho de vento comum em Portugal, resultou de uma fusão do tipo de moinho oriental, introduzido na Península Ibérica pelos árabes, e o tipo de moinho de vento do norte da Europa.

Podemos dividir os moinhos de vento existentes em Portugal em três tipos: moinhos de vento fixos de torre, moinhos de vento giratórios e moinhos de armação.

Os da nossa região são denominados de moinhos de vento fixos de torre.

A característica principal deste tipo de moinhos, é a capacidade de rotação do seu tejadilho em função da necessidade de acompanhar a direcção do vento. O sistema de tracção do tejadilho é por meio de sarilho interior.

Normalmente este tipo de moinhos são de construção mais robusta e de altura mais elevada, utilizando como o próprio nome indica, um sarilho ou roldana para rodar o seu tejadilho e velas na direcção pretendida.

O material utilizado na construção das paredes é principalmente a pedra, rebocada ou não.

Depois do abandono

Deixaram de existir por razões tecnológicas e de mercado.

O progressivo abandono da agricultura e o envelhecimento daqueles que dominavam as técnicas e a paixão por estes engenhos votou ao abandono quase todo este património. Os que subsistiram foi à custa do empenho pessoal de uns quantos.

Apesar do abandono a que foi votado grande parte deste património, ainda existem proprietários, associações, autarquias, ou outras entidades públicas ou privadas, que apostam na recuperação e valorização do mesmo. Nesse sentido, pode-se colocar a questão: Para quê recuperar os moinhos tradicionais? Naturalmente que o seu carácter patrimonial é inquestionável, uma vez que representam a memória de um povo, a sua história económica e social, a sua história tecnológica e, frequentemente, o repositório de crenças, ditos e de pequenas histórias, que constituem parte do imaginário popular. Para além disso, e talvez menos evidente, os moinhos tradicionais têm, através dos mecanismos que os equipam, um enorme potencial pedagógico, uma vez que representam a aplicação prática de princípios físicos que são estudados desde o ensino secundário (noção de força, de binário, de trabalho e de potência; máquinas simples como roldanas e alavancas, etc.) até ao ensino superior (turbomáquinas, aproveitamento da energia eólica, etc.).

Para além disso, sendo devidamente integrados num contexto patrimonial local, podem constituir pontos de interesse turístico relevantes e, nesta medida, cativarem os visitantes e prolongarem a sua estadia. Este é um objectivo de desenvolvimento local, uma vez que a atracção de novos consumidores e o prolongamento da sua estadia incrementa a actividade económica local.

Curiosidades

É urgente valorizar e divulgar estas marcas do nosso passado, mostrando-as às gerações actuais e futuras. O aproveitamento deste património para fins didácticos, culturais ou meramente turísticos, pode e deve ser a solução para permitir a sua preservação, podendo mesmo contribuir para o próprio desenvolvimento local.

A preservação, tão completa e fidedigna quanto possível, de grande parte dos moinhos de vento tão característicos da nossa região deverá ser considerada como uma manifestação de maturidade cívica e cultural do mesmo nível da preservação do restante património.

 


Definição de moinho – (do latim ‘molino’)

Os moinhos são engenhos estudados para pôr em movimento duas pedras (mós), de modo a que entre elas se consiga esmagar (moer) os cereais transformando-os em farinha. Os primeiros foram pequenos moinhos a braços depois ampliados para aproveitamento da força do homem (principalmente escravos e condenados), e mais tarde da força dos animais. Quando Constantino aboliu a escravidão, apareceram os moinhos de água (azenhas), primeiro grande passo para o aproveitamento das forças naturais. São igualmente muito antigos os moinhos de vento, que deram entrada na Península Ibérica com as Cruzadas, no século XI. Em 1157 uma doação régia entrega a D. Gualdim Pais “mestre Absoluto da Ordem do templo” oito moinhos na ribeira de Alviela, declarando-se que metade do seu rendimento seria propriedade da coroa. No século XVI existiam em Lisboa 264 atafonas (pequenos moinhos movidos pela força humana ou animal, e azenhas) e nos termos da cidade 300 moinhos. O moinho de vento tem a particularidade de captar a energia do vento por meio de velas (de lona na Península e de madeira nos Açores e Norte da Europa) que transmitem o movimento a um eixo ligado à engrenagem que põe em andamento as mós.

Os moinhos são constituídos por uma estrutura circular em “torre” de dois a três pisos,  construídos em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, onde assenta a cúpula bolbosa, em madeira, de onde emerge a ponta do mastro com quatro velas de grade. O moinho tem uma porta e pequenas janelas nos vários pisos. É encimada por uma estrutura cónica. Como é usual, a adaptação à direcção dos ventos faz-se através da rotação do tejadilho do moinho que gira sobre o “corpo” do edifício, manejado através de uma comprida haste à qual se dá a designação de “rabo”.

A localização dos moinhos no espaço, bem como a sua implementação na paisagem, uma vez que é necessário o sítio ser alto de modo a tornar possível um melhor aproveitamento da força do vento, contribuem decisivamente, com o correr dos tempos, para os transformar em algo que transporta uma certa carga sobrenatural. Eles só dependem do vento para trabalhar, vento esse que faz movimentar as velas e as mós. O vento é o maestro sublime que dá o tom e as velas são os músicos experimentados que fazem ouvir a conhecida “música do moinho”.

No piso de cima do moinho está toda a engrenagem que permite moer os cereais. O movimento das velas transmite-se à engrenagem interior através do mastro e é assim que as mós de pedra rodam e moem os cereais.

 

Provérbios

  • Águas passadas não movem moinhos.
  • Pelo S. Martinho, deixa a água pró moinho.
  • Quem ao moinho vai, enfarinhado sai.
  • Tanta vez vai o rato ao moinho, que um dia fica lá com o focinho.
  • Para a missa e para o moinho não esperes pelo teu vizinho
  • A roda da fortuna anda mais que a do moinho

Dia do Moinho

No calendário das efemérides portuguesas, o dia 7 de Abril é o Dia Nacional dos Moinhos. Apesar das ausências de comemorações, diversos projectos de valorização e recuperação deste património estão em curso um pouco por todo o país, seja como elemento de valorização da paisagem ou estruturas de apoio ao lazer e projectos educativos e de turismo. Apesar de não existir um cadastro completo onde constem todos os moinhos existentes no país, um levantamento efectuado em meados dos anos 60 do século passado estimou em 11 mil o número de moinhos de água e vento a funcionar em Portugal.

O património molinológico estende-se por todo o país e é tão variado quanto as fontes de energia utilizadas. No litoral abundam os moinhos de vento, no Centro-Norte os de água (azenhas) e na montanha e montanha alta os mais pequenos, de rodízio, enquanto no Sul existem todos os tipos, conforme a energia que se podia aproveitar em determinado local: vento ou água.

 

Energia eólica – o vento é o resultado da deslocação do ar de zonas de alta pressão para zona de baixa pressão. O ar em movimento possui energia cinética que pode ser aproveitada para produzir outros tipos de energia.

O aproveitamento da energia eólica através de moinhos de vento para moagem tem lugar há mais de mil anos. O movimento das velas do moinho é transmitido ao mecanismo de rotação de moagem.

Com o aparecimento das novas tecnologias, os moinhos de vento foram caindo em desuso, pois as novas tecnologias permitem rendimentos muito maiores.

Um moinho de vento usa a energia eólica, como fonte de energia para os seus mecanismos.

Sobre Fruto da Notícia

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2 respostas a Nem Tudo o Vento Levou…

  1. António Ferreira diz:

    Parabéns pela escolha do tema, da região e pelo trabalho realizado.
     
    Neste momento encontro-me a trabalhar num projecto relacionado, pelo que gostaria de saber se tem alguma informação sobre as azenhas que os moleiros tinham, em complemento dos moinhos nesta zona.
     
    Obrigado

  2. António Ferreira diz:

    Aproveito para lançar um desafio.
     
    Acho que a ribeira da Bezelga, o caminho paralelo, as azenhas e as lapas da fornea, davam um bom 2Fruto da Noticia".
     
    Bom trabalho 

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