Manuel dos Reis – O moinho foi a minha vida

Em pequeno eu já queria ter um moinho
 
 

Manuel dos Reis tem 87 anos e reside em Casais da Igreja com a esposa, Maria de Lurdes de 81 anos. É o único moleiro da freguesia de Assentis que ainda está vivo.

Ainda Manuel era uma criança e já sonhava em ter um moinho: “Em pequeno eu já queria ter um moinho. Fazia moinhos de canas…”, conta Manuel dos Reis. A esposa confirma o sonho do marido: “Ele quase que nasceu no moinho. Eu já estava noiva dele e ele muitas vezes dizia-me que ia até ao moinho do Manuel Rodrigues Moleiro. Acabava sempre por só regressar de madrugada, tal era o gosto que ele tinha em aprender”.

Pouco tempo depois de casar e já com alguns filhos, o sonho de Manuel persistia a tal ponto de dizer à esposa, uma frase que ela ainda hoje não esqueceu: “Se me dissessem que nunca havia de ter um moinho por minha conta, eu antes queria morrer!”

O sonho tornou-se realidade, e aos 25 anos de idade, Manuel comprou a Francisco Rodrigues Moleiro, do Casal da Pena, o moinho situado na Portela. Custou 13 contos, hoje 64,84€.

Durante 19 anos, trabalhou no moinho juntamente com os filhos e com a ajuda da esposa. Os fregueses eram muitos, a grande maioria de Outeiro Pequeno, Outeiro Grande, Vargos, Moreiras Grandes e Carvalhal do Pombo. Maria de Lurdes ainda hoje se recorda do nome de algumas pessoas de Outeiro Pequeno: “Havia lá a srª Morena, a Gracinda da Fonte (esposa de António Pereira), uma mulher cujo marido tinha uma perna de pau… E recordo-me perfeitamente da Emília da “Catrina” que quando via passar os meus filhos, tinha pena deles, chamava-os e dava-lhes pão com azeite e açúcar”. Maria de Lurdes e os filhos percorriam as várias aldeias com um burro e uma mula a buscar os cereais para serem transformados em farinha no seu moinho. Depois levavam a farinha aos fregueses. Alguns, porém, iam pessoalmente ao moinho com os seus taleigos.

Durante 19 anos o trabalho no moinho foi o sustento da família. Dada a sua importância, os familiares não pretendem separar-se do moinho: “O moinho foi a nossa vida. Tenho um filho que foi para lá com 11 anos e os outros irmãos desde muito cedo também começaram a ajudar e lá passaram muitas noites”, recorda Maria de Lurdes. Era um trabalho diário e contínuo durante todo o ano. “O moinho tinha que moer todo o ano, porque as pessoas comiam pão todos os dias”, refere ainda.

O trabalho no moinho e a sua rentabilidade estava dependente do vento: “O vento é que mandava”, responde Manuel.

Desde a Portela da Cruz até à Portela da Pena existem hoje 12 moinhos. Mas, há cerca de 80 anos, apenas ali existiam 4, conta o casal de moleiros. A esposa ainda se recorda da edificação de alguns que surgiram posteriormente, como foram por exemplo, os moinhos de João Coelho e de José Conde.

Para Maria de Lurdes, o moinho não lhe deixa muitas saudades: “Tive pena de tudo… só não tive pena, foi do moinho!… Dava muito trabalho. Era de noite e de dia”, desabafa.

Já para Manuel dos Reis, a possibilidade de regressar uma vez mais ao moinho, deixa-o com um brilhozinho nos olhos. O moinho foi o seu

Manuel dos Reis e Maria de Lurdes

sonho transformado em realidade. Foi a sua vida.

Questionado pelo «Fruto da Notícia», para explicar como funcionava o moinho, disponibilizou-se gentilmente em fazer uma visita guiada ao seu moinho.

“O moinho deve estar cheio de cortinados!…”, avisou Maria de Lurdes em jeito de brincadeira, para a possibilidade de ali existirem teias de aranha. É que só de vez em quando é que lá vão com os filhos para matar saudades.

Na tarde do dia seguinte, o «Fruto da Notícia» foi visitar o moinho na companhia do casal. Actualmente, um veículo automóvel consegue ir até junto dos moinhos, porque foram abertas estradas para o efeito.

O moinho do senhor Manuel distingue-se dos outros ali presentes. É o ex-líbris do conjunto dos moinhos, porque é o único que no exterior ainda conserva o mastro de madeira com os paus cruzados. As velas antigamente eram em lona. O moinho foi recuperado e teve apoio estatal. Mantém a mesma função original, ou seja, possui toda a engenharia e equipamentos indispensáveis para o normal funcionamento. Ao lado, outros foram recuperados e adaptados para turismo rural.

O coruto do moinho é em zinco e no seu cimo está um cata-vento em forma de peixe. Maria de Lurdes chama ao coruto, o “carapuço” do moinho. O moinho está pintado de branco. Tal como os outros, tem a porta virada para sul. Ao lado da porta ainda se encontra uma pedra perfurada onde se prendiam os burros.

Aberta a porta do moinho, deparamo-nos com entrosas e carretos que compõem a base do engenho. À esquerda uma escadaria em pedra adjacente à parede circular e que dá acesso ao piso superior.

Apesar dos 87 anos e com a ajuda de uma bengala, Manuel dos Reis sobe degrau após degrau a estreita escadaria. A saudade de ver uma vez mais as mós do moinho dá-lhe a força necessária para a subida. Ao chegar ao piso de cima é necessário abrir uma das duas pequenas janelas do moinho, de forma a dar claridade. O piso é em madeira e à nossa frente está o conjunto principal de toda a maquinaria artesanal que compõe o moinho. Manuel dos Reis, apesar da dificuldade em se exprimir nitidamente, explicou o funcionamento de cada peça. Quando era necessário, utilizava-se o sarilho e uma corrente de ferro para rodar o coruto do moinho de modo a escolher a melhor direcção do vento para o encarar sempre de frente.

Normalmente, cada moinho só possui 2 pedras. Este porém, é o único dos ali existentes que tem 3 pedras e que podem funcionar em conjunto na moagem dos cereais.

Ao centro do moinho existe um eixo vertical, no topo deste eixo existe um carreto no qual engrenam os dentes da entrosa. Deste modo, a energia cinética de rotação gerada no mastro devido à propulsão dada pelo vento ao ser captado pelas velas, é transmitida pelo eixo central até à base do moinho onde é depois aproveitada.

A energia que chega à base do moinho através do seu eixo central é utilizada para fazer rodar uma mó. Uma é uma pedra maciça, esculpida em forma de anel cilíndrico achatado, de faces sulcadas e a cujo centro vazio se chama olho da mó. Numa instalação para moagem existem duas mós, sendo uma delas fixa, denominada de poiso, e assente no chão do moinho, sobre a qual se coloca uma segunda mó denominada de corredoura com uma folga ligeira de modo a que não impeça o movimento de rotação, com raio idêntico ao do poiso mas com altura inferior (um poiso pesava tipicamente 1200kg, enquanto que uma corredoura pesava 800kg).

A pedra para moer o trigo vinha da Serra de Santo António. As outras eram provenientes de Poiares.

A corredoura está suspensa no eixo vertical, sendo fixa a este através de um suporte regulável em altura, e de seu nome segurelha. A necessidade de regular a altura da corredoura deve-se ao facto do desgaste em altura das faces, a que ambas as mós estão sujeitas com o desenrolar da actividade de moagem, por efeito da fricção. Quando os sulcos das mós desaparecem, cabe ao moleiro criar novos sulcos para que a moagem do cereal seja possível, acto ao qual se chama o picar da mó e que é realizado com o auxílio de ferramentas cuja forma e função se assemelham à de uma picareta, de seu nome picão e picadeira.

Manuel dos Reis teve que ir ao concelho de Alenquer para aprendeu a picar as mós.

A moagem do cereal é feita depositando-o em grão na folga existente entre o poiso e a corredoura. A rotação da corredoura fricciona os grãos contra o poiso esmagando-os repetidamente até que lentamente se transformam em farinha, sendo este o nome atribuído ao pó a que se reduzem os cereais moídos. O cereal em grão é depositado numa caixa de madeira, com o formato de uma pirâmide invertida, denominada moega à qual se liga uma calha também em madeira que conduz o grão para o olho da mó e o deposita na folga entre o poiso e a corredoura.

As duas mós, corredoura e poiso, são resguardadas à volta por taipais em chapa, para evitar que a farinha se espalhe. Apenas existe um único orifício por onde sai a farinha para dentro de uma caixa de madeira.

A energia centrífuga provocada pela rotação da corredoura faz com que o grão (e o produto da sua moagem) se desloque desde o olho até à circunferência da mó onde é recolhido já em farinha.

Quando era necessário proceder à retirada da mó, Manuel dos Reis utilizava uma alavanca de ferro para aliviar a mó e colocava debaixo um rolo de madeira.

Todo o tipo de cereais eram ali moídos mas a maior quantidade era de trigo.

As 3 pedras só funcionaram uma única vez em conjunto, dado que, o moinho trabalhava melhor só com duas. Uma das mós que ali existe é especial. Manuel dos Reis chama-lhe mó “só para noivos”, porque era a mó que fazia farinha mais fina para os casamentos.

Apesar do espaço ser pequeno, muitas vezes chegou a dormir com os filhos ao lado das mós. Era de noite que fazia o melhor vento. Para aproveitar o vento da noite, trabalhava com ajuda de uma lanterna. O vento norte que vinha da direcção da garganta do Furadouro era considerado o melhor. Também bom era o vento suão proveniente dos lados de Assentis e Casais da Igreja.

Ao longo do dia, ouvia o assobiar do vento. As quantidades de grão que o moinho moía variava muito de caso para caso, conforme o diâmetro da mó, grau de desgaste, natureza, peso da mó, e acima de tudo a velocidade da rotação.

O primeiro piso do moinho, é destinado para arrumos: sacos de cereais, farinha, arcas e balança.

O serviço prestado aos fregueses era pago com dinheiro ou com a maquia da farinha. Outros porém pagavam com a troca de outros bens necessários à alimentação, uma espécie de troca directa.No Inverno, Manuel dos Reis também chegou a trabalhar com um moinho de água, localizado na Ribeira da Beselga, no lugar a que chamavam de Açude

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