Entrevista com Júlio Clérigo, Presidente do Choral Phydellius

 

CHORAL PHYDELLIUS 

A cantar e encantar desde 1957

Fundado em 17 de Maio de 1957, o Choral Phydellius de Torres Novas tem um repertório muito vasto, o qual abarca vários géneros musicais, desde a Idade Média até ao século XXI.

A origem do nome Choral Phydellius teve por base o nome da ópera “Fidélio”, do compositor alemão Ludwing Van Beethoven.

Iniciou a sua actividade com um coro masculino, que passados poucos anos integrou também elementos femininos e alargou os seus horizontes musicais. Desde a sua fundação até 1971, foi dirigido por Fernando Cardoso. Com a entrada do maestro José Robert, o coro ganhou um novo dinamismo, alargou os seus conhecimentos, aperfeiçoou o seu estilo, reformulou e diversificou o seu repertório. Ano após ano o grupo alcançou grande protagonismo e tem realizado centenas de actuações em Portugal e no estrangeiro participando em inúmeros festivais e intercâmbios.

Para além do coro adulto, em 1988 surgiu também um coro juvenil.

No ensino da música, o Choral Phydellius mantém em funcionamento, desde 1975, a sua própria escola, a qual passou a ser oficial em 1983 com o nome de Conservatório de Música do Choral Phydellius.

No próximo mês de Maio, o Choral Phydellius comemora 50 anos e o «Fruto da Notícia» foi entrevistar o Presidente da associação, Júlio Clérigo, natural de Outeiro Pequeno. Uma grande entrevista, onde nos dá a conhecer a origem e a evolução da associação.

 

Fruto da Notícia (FN) – O que é o Choral Phydellius?

Júlio Clérigo (JC) – É uma instituição que no próximo dia 17 de Maio faz 50 anos. Começou com um pequeno grupo de jovens (6 a 7 rapazes) que se uniram para cantar e acompanhar missas a nível de coro de Igreja. Passados dois anos, o grupo teve a adesão de elementos do sexo feminino e logo depois, passou a ter outro carácter que não só o coro de Igreja, mas também concertos fora desse âmbito. Foram dirigidos por um torrejano, o maestro professor Fernando Cardoso. Depois de algumas alterações e cisões com a saída desse maestro (que teve que sair por motivos de ordem militar), novas pessoas entraram e criaram-se algumas divisões que levaram a que o coral determinasse e delineasse um determinado caminho, que na verdade veio a seguir e onde chegou até hoje. A partir de 1971, o coral passou a ser dirigido por José Robert, que é considerado um dos maiores maestros, senão o maior da actualidade de coros amadores. Falo assim e com conhecimento de causa, porque para além de trabalhar connosco deu uma grande projecção ao Choral Phydellius, assim como o Choral também o projectou a ele. Hoje as imagens, José Robert e Choral Phydellius estão de tal ordem diluídas uma na outra, que quando se falo num está implícito o outro. José Robert foi um amigo, como também foi nosso amigo o maestro Fernando Lopes-Graça.

 

Entretanto, ele foi depois o ajudante dele ( o 2ª maestro) no Coro Lopes Graça, o Coro da Academia de Amadores de Música de Lisboa. Mais tarde acabou por ser o primeiro director desse coro, e hoje ainda se mantém na sua direcção. Para além disso tem o Coro da Universidade de Lisboa, entre outros. Sempre trabalhou em paralelo connosco, sem nunca nos ter deixado. A sua categoria levou-o a uma dinâmica perfeitamente diferenciada do Choral Phydellius em relação aquilo que era. Hoje digo que o Choral Phydellius está integrado no panorama dos melhores coros amadores nacionais e atrevo-me ainda a dizer algo mais; pela experiência que temos a nível internacional, ele está nos bons coros internacionais. Isto pode-se dizer, porque na verdade temos um intercâmbio com outros coros internacionais, experiências essas que nos fazem ter conhecimento do que está para além de nós e do país. Estamos a um nível muito interessante no que respeita à qualidade, repertório e a toda uma série de coisas, as quais se devem muito a quem nos dirige. As pessoas podem ser muito boas cantoras, terem muito boas vozes e entretanto não fazerem um trabalho colectivo com a importância daquilo que faz hoje o Choral Phydellius. Sem que haja propriamente vozes magníficas, existe um conjunto de vozes que orientadas por aquele director, fazem um trabalho muito interessante.

 

FN – Porquê o nome “Choral Phydellius” ?

JC – Na base da sua origem esteve uma obra muito conhecida de Beethoven que se intitula “Fidélio”. Daí, pluralizaram o nome e surgiu o “Choral Phydellius”.

 

FN – Como é que o Choral evoluiu ao longo destes 50 anos?

JC – Teve uma evolução progressiva e constante porque teve sempre gente com muito valor que o dirigiu. Há que reconhecer que as coisas para durarem têm que ter gente abnegada e com interesse para dirigir a associação. É fácil constituir-se uma associação, mas fazê-la durar não é tão fácil assim, pelo que tem que haver gente interessada. De facto, esta associação evoluiu porque sempre teve gente capaz de a orientar e levá-la a um tipo de trabalho que não se cingiu à cidade, mas que passou para o país e para o estrangeiro. Com o tipo de trabalho que o José Robert incutiu neste coro; um trabalho de coeficiente de dificuldade acrescida e de qualidade muitíssimo boa, fez com que as coisas fossem crescendo, com uma dinâmica que levou a que o coro tivesse uma grande projecção no país e no estrangeiro.

 

FN – Quantas pessoas é que integram a associação?

JC – Neste momento o coral adulto tem mais de quarenta elementos efectivos, mas normalmente não actuam todos juntos. Há sempre alguém que falta ou que não tem disponibilidade, pelo que o coro actua com 30 a 40 elementos.

O coro juvenil tem mais de 30 elementos.

No Conservatório de Música, escola oficial desde 1983,  leccionam 21 professores e os alunos são cerca de 120.

Sendo o Conservatório de Música uma escola oficial, podem os alunos que quiserem em algumas disciplinas curriculares, como é o caso da música, efectuar as disciplinas no nosso conservatório. E seremos nós que damos a nota. É o chamado ensino articulado desde que correspondam anos lectivos da escola com alguns anos do nosso conservatório. Os alunos são inclusive, depois apoiados pelo próprio Governo, ou seja, a escola recebe uma parte para formar esses alunos os quais depois pagam muito menos do que aqueles que não estão nesse regime de ensino articulado. Assim, o Ministério acaba por nos pagar a nós uma parte das despesas com esses alunos, não pagando à escola regular essa parte.

No presente ano estamos pela primeira vez, a fazer um trabalho em parceria com a Câmara Municipal, denominado de trabalho de enriquecimento curricular, com o ensino de música nas escolas do ensino básico. É o Choral Phydellius que tem essa responsabilidade. Tivemos que contratar mais 10 professores para prestarmos esse serviço à Câmara, projecto esse emanado pelo Governo, mas cujas Câmaras são as entidades promotoras, as quais depois delegam nas instituições que se candidataram e que acharam convenientes. No concelho de Torres Novas, somos nós que o estamos a fazer. Assim, temos mais de mil alunos distribuídos pelas várias escolas básicas do concelho. Ao contrário do que acontece com a ginástica e com a natação em que são as escolas a trazerem os alunos, com a música é diferente. São os nossos professores que se deslocam às escolas para prestarem esse serviço. Tudo o que é de ordem formativa, de material e organizativa é nosso.

 

FN – O Choral Phydellius é uma associação que se basta a si mesma ou tem apoios regulares do Estado?

 

JC – Não se basta a si mesma. Era impossível. Até há uns anos atrás, todas as actividades do coro, concretamente os concertos,  eram gratuitos. Já havia as despesas, mas havia também mais fundos de financiamento. Facilmente obtínhamos financiamentos quer através de contactos com empresas,  particulares, Câmara, Instituto Português da Juventude, Inatel, Gulbenkian, Ministério da Cultura e Governo Civil. Era muito mais fácil angariar fundos antigamente do que hoje. Hoje, as despesas são incomparavelmente muito maiores. Isto leva a que actualmente o Choral Phydellius já não possa ir gratuitamente fazer os concertos que fazia, mas tem que cobrar cachet. O maestro é um profissional e para além do ordenado mensal, tem um cachet instituído por cada concerto que rege connosco. As outras entidades que há pouco referi continuam a apoiar-nos, como por exemplo a Câmara, que nos apoia com um subsídio mensal. Por muito pouco que seja é muito bem-vindo, porque todos os poucos juntos fazem o que nós precisamos que é o montante global para as despesas.

Estou apenas a individualizar o coro, porque se tiver que acrescentar também as despesas do Conservatório com o número de docentes que tem, são necessários mais de 15 mil euros por mês só em ordenados, para além de toda uma despesa descomunal que existe em toda a organização. Actualmente o Choral Phydellius funciona como uma pequena empresa com um movimento já bastante razoável. O que faz a sustentação económica do Conservatório são as mensalidades dos alunos e os apoios do Ministério da Educação, dado o protocolo que temos com o Estado por sermos uma escola oficial que nos financia uma parte das despesas.

 

FN – Antes do Conservatório já funcionava a escola de Música…

JC – A escola de música já existe desde os anos 70, passando a ser oficial desde 1983.

Iniciou com o nome de Escola de Música do Choral Phydellius, hoje denominado de Conservatório de Música do Choral Phydellius onde se lecciona até ao 8º grau. Os alunos quando saem daqui podem ir para um Curso superior numa Universidade onde podem seguir os estudos e fazerem a profissionalização como instrumentistas ou músicos. Hoje pode-se fazer cursos superiores, licenciaturas e mestrados em música e até nos instrumentos individualizados. Pode haver uma licenciatura em órgão, clarinete, piano, violino e as mais variadas licenciaturas a nível instrumental.

 

FN – A nível de instrumentos, quais os que são leccionados no Conservatório de Música do Choral?

JC – Piano, órgão, violino, violoncelo, guitarra clássica, trompete, clarinete, trombone, acordeão, percussão, saxofone… As formações musicais nas iniciações são através de turmas, mas depois em termos de instrumentos é um professor para um aluno, com aulas individualizadas. Os professores vêm de fora do concelho em vários dias o que permite dar um uso múltiplo a cada sala. Como em todas as escolas oficiais, também nós hoje, deparamos com a dificuldade exigida pela necessidade de que os professores tenham habilitações para o efeito. Só em casos excepcionais, podem não ser licenciados, mas terem um curriculum que permita com uma autorização do Ministério para leccionar a disciplina, mas sempre com uma habilitação mínima, a indispensável.

Isto leva a que tenhamos que ir buscar professores a Lisboa, Aveiro, Castelo Branco, Palmela, Figueira da Foz, Tomar entre outras cidades. Para nós é uma despesa acrescida, porque todos os nossos professores têm um subsídio para deslocação. E quanto maior é a distância, maior é a despesa.

 

FN – O Choral Phydellius tem instalações próprias?

JC – As instalações onde está sedeada a associação são da Câmara. É um edifício com 3 pisos: auditório no rés-do-chão e os outros pisos estão preenchidos com salas de aula. A associação tem um protocolo de cedência pela Câmara por um período de 50 anos desde que o edifício foi reconstruído, de modo a criar as condições necessárias para funcionar como escola.

Hoje o Choral Phydellius não tem as condições necessárias. Falta-lhe neste momento um espaço social onde os coralistas e as pessoas se possam juntar para um convívio. O que leva a que muitas das vezes tenhamos que improvisar muitas das coisas. Mas hoje deparamo-nos com um outro problema devido ao aumento progressivo de alunos. Começamos a ter dificuldades de espaço para o funcionamento da escola com todas as condições. Já faltam salas de aula.

 

FN – Quantas vezes é que o coro ensaia por semana?

JC – Dois ensaios por semana. Quando há algum trabalho mais aturado é que obriga a alguns ensaios suplementares.

 

FN – É fácil atrair a juventude para o coral?

JC – Não é muito difícil. A dificuldade está depois em mantê-los. O coral tem sofrido alguns momentos de alguma angústia porque temos os jovens que vêm, rejuvenescem o coro, mas depois lá vem a universidade, os trabalhos fora que os leva a terem de se deslocarem e a deixarem de estar cá. Hoje o coral adulto tem um núcleo com bastantes pessoas que o integram há várias dezenas de anos. São a coluna vertebral do Choral Phydellius.

 

FN – Para integrar o coral é preciso saber cantar ou aprende-se aqui a cantar?

JC – Não é propriamente preciso saber cantar. Mas é preciso haver algumas condições: ter vontade, ter ouvido e ter alguma voz. Não precisamos de vozes “Carreras” ou coisas do género, mas vozes que depois de afinadas e orientadas pelo profissional que temos na frente e de grande gabarito, conseguem-se bons resultados. É preciso pensar que as pessoas têm que ter algum ouvido, alguma afinação… não pode ser qualquer pessoa que venha para um coro com esta projecção. No entanto, não se pense que é difícil. Às vezes as pessoas até podem saber cantar, terem boas vozes, serem muito afinadas, mas se não se integrarem em grupo… Isto é como um solista que quando canta improvisa, e faz ele só por si o espectáculo. Mas se estiver num coro ele não pode evidenciar-se, ele tem que estar num naipe e este tem que responder por si sem haver vozes individuais. Tem que existir um conjunto de vozes que se uniformizem e não uma série de solistas cada um para o seu lado. Tem que existir uma disciplina coral que impõe algumas condições. Mas desde que as pessoas tenham vontade, ouvido e uma voz que possa ser trabalhada e aceitável, então tem cabimento no Choral Phydellius. Não somos um grupo de especialistas.

 

FN – Mas deve ser difícil articular as vozes, quando não existe nenhum instrumento para abafar algum erro que possa existir…

JC – Quando há um coro que é acompanhado por orquestra (por instrumentos) facilmente alguns defeitos passam por abafamento da outra parte. Porque também pode acontecer a orquestra ser abafada pelo coro. Mas o coro a cantar à capela ( a solo) é muito mais difícil, porque as deficiências são muito mais notórias. E para aqueles ouvidos experimentados, sabem quem está a cantar bem e a cantar mal. E aí não há o encobrimento dos instrumentos para os falhanços.

 

FN – Como é classificado este tipo de música?

JC – O coral como música é difícil de defini-lo que não como música coral, porque o coral tem música sacra, profana, religiosa, popular.

Tomando por exemplo, o grande maestro Fernando Lopes-Graça (cujo centenário do seu nascimento se comemorou no ano de 2006),  em que muitas das suas músicas são de raiz popular, mas que ele depois harmonizou. Todo este género de música tem as várias componentes.

 

FN- O Choral percorre o país e atravessa fronteiras. Como é que as pessoas reagem à vossa actuação?

JC – Voltamos a sair no próximo mês de Abril para a Bélgica. Temos ido a variadíssimos países, essencialmente na Europa: Espanha, França, Alemanha, Turquia, Bélgica, Áustria, entre outros. Não vamos a mais lados, porque infelizmente a tal dificuldade de subsídios leva a que uma parte destas acções, nomeadamente as despesas de deslocação são pagas do bolso dos próprios coralistas. Isto leva-nos a não podermos aceitar todos os convites para que somos solicitados.

Quanto às reacções das pessoas, observo de tudo um pouco. Em lugares que às vezes parecem os mais inóspitos, como até em aldeias a nível internacional, observo que mesmo que não haja uma grande quantidade de pessoas, são entusiastas em que parecem que estão a beber aquilo que estamos a transmitir em termos musicais. É fantástico! Outras, grandes salas, grandes ambientes e em que a disciplina não é a mesma coisa. A nível nacional é igual. Ainda recentemente tivemos o Concerto dos Reis, que tradicionalmente fazemos todos os anos como forma de dar as boas-festas aos torrejanos e a quem nos visita. É sempre um concerto muito frequentado. Este ano foi efectuado na Igreja do Salvador, igreja que viu nascer o Choral Phydellius, porque foi lá na sacristia que começaram a cantar há 50 anos. A Igreja estava a “rebentar pelas costuras” com pessoas sentadas, outras de pé e onde quase não cabia mais uma agulha. Em outras alturas não é assim; algumas vezes com um público reduzido, talvez fruto de quem nos convida não ter o cuidado da divulgação de forma a chegar a muitas mais pessoas.

 

FN – Quais são os projectos para o futuro do Phydellius?

JC – Como gostamos de viver um ano após outro, estamos com grande expectativa daquilo que vai acontecer este ano, com o quinquagésimo aniversário. Já começámos com o Concerto de Reis e vai terminar com o próximo Concerto de Reis de 2008. Pelo meio já tivemos um concerto nos Jerónimos em Lisboa e vamos ter nos próximos meses muitas actividades. Em Maio realiza-se o próprio Concerto do Phydellius com coros internacionais que irão estar presentes no aniversário da associação. Para além das dezenas de concertos que fazemos por ano, temos outras actividades como concertos de câmara, workshops, trabalhando em paralelo com o Conservatório. Existem outros concertos agendados com excelentes professores e instrumentistas que temos, e que vão participar em outros concertos. Se tivermos apoios para o efeito, teremos a organização de peças para efectuarmos em conjunto com orquestra, ou pelos menos uma obra específica para trabalhar com orquestra. Temos em mente a gravação de um CD e está também a decorrer a realização de um livro para sair ainda durante este ano com a história dos 50 anos do Choral Phydellius. Há ainda o concurso para uma peça coral a apresentar a vários compositores, em que haverá um prémio pecuniário para atribuir ao vencedor. São várias as actividades que estão projectadas, algumas com reservas, porque estamos a depararmos com algumas dificuldades na aquisição de alguns apoios financeiros.

 

FN – Há quantos anos é que está ligado ao Choral Phydellius?

JC – É uma ligação que já vem desde 1974. Comecei como coralista. Com funções directivas, sou presidente há 7 anos, mas antes já exerci funções directivas durante cerca de 8 anos. Todas as associações apresentam como dificuldade (e o Choral Phydellius também padece), em conseguir arranjar quem queira dirigir as coisas de forma gratuita e empenhada. Estou aqui por gosto, mas também porque uma grande parte das vezes, ninguém mais quer assumir esta responsabilidade. É muito bonito ouvirmos dizer às pessoas que votam em nós pela capacidade, pela pessoa; mas a verdade é que muitas das vezes também é para se descartarem a alguma responsabilidade.

 

FN – Qual é o seu tom de voz no coro?

JC – 2º Tenor. Os coros são divididos em 4 naipes: nos femininos há os sopranos (vozes agudas) e os contraltos (vozes graves). Estes naipes ainda se subdividem e podem ser 1º sopranos e 2º sopranos. No caso dos homens há os tenores e os baixos.

FN – Como é que veio parar ao Choral?

JC – Como a grande maioria dos coralistas. Através de amigos que nos dizem, que nos falam, que estão, que gostam e entretanto, vamo-nos trazendo uns aos outros. Eu vim através de umas primas que tive aqui e que me falaram disto. Vim e aqui permaneço, há mais de 30 anos.

 

FN – O que encontrou aqui que o levou a continuar?

 

JC – O gosto por aquilo que se faz, o gosto de cantar e de cantar em grupo. Depois a amizade que se cria com o grupo, e há sempre aqueles com quem nos identificamos e nos aproximamos mais. E dentro do próprio grupo há depois aqueles com quem temos grandes afinidades, outros nem tanto, mas no fundo vivemos todos em grupo. Agrada-me o espírito de grupo e tudo o que é social. Quando comecei a ser convidado para fazer parte das direcções e a dirigir, levou-me a quase conceber isto como uma coisa pessoal, uma obra própria. É difícil descrever porque é que nos agarramos a uma determinada associação, por vezes com algumas horas de desespero e até chegar a pensar: “Estou farto disto! Porque é que não hei-de vir aqui como as outras pessoas sem responsabilidade nenhuma? Porque é que hei-de estar aqui todos os dias? Porque hei-de vir?..”

 

Eu gosto, mas também me canso. E já gostaria de ter sido substituído há muito tempo. Porque é necessário. É preciso que venham novas ideias para se imprimir novos ritmos, novas dinâmicas, porque ao fim de muitos anos ficamos a repetir muitas das coisas. E isto também não é bom para as associações. Apesar de tudo, tenho tido a sorte de nas direcções por onde tenho passado ter gente que trabalha comigo e assim organizamos as direcções

 

 

RECORDAR A VIDA NA ALDEIA

Júlio Manuel dos Reis Clérigo é natural de Outeiro Pequeno onde nasceu há 59 anos. É filho de Júlio de Oliveira Clérigo e de Maria José dos Reis e tem uma irmã Maria Lucília dos Reis Clérigo que reside na aldeia natal.

Júlio Clérigo é casado, tem 2 filhos, 1 neto e um outro já vem a caminho. Reside há vários anos em Torres Novas e exerce a actividade de  representante de máquinas da indústria têxtil, actividade que também está a sofrer o efeito negativo que o sector têxtil atravessa devido às incursões dos produtos vindos da Ásia.

Apesar de viver em Torres Novas não consegue desligar-se do Outeiro Pequeno. Ande por onde andar, para além de dizer que é de Torres Novas, acrescenta sempre que é de uma aldeia que se chama Outeiro Pequeno. “É lá que estão as minhas raízes e gosto da forma como se vive na aldeia”, justifica.

FN – Como é que foi a sua infância no Outeiro Pequeno?

JC – Como todas as crianças. Vivíamos o ambiente de aldeia, nada comparado com o ambiente que as aldeias hoje têm. Ao olhar hoje para o Outeiro Pequeno, vejo coisas que na altura vilas e cidades não tinham. Nessa altura as crianças viviam com algumas dificuldades e fora do ambiente caseiro eram os jogos tradicionais: o pião, a malha, a bola, e assim se vivia. Depois pela minha própria necessidade de sair para poder chegar mais longe, com 11 anos comecei a vir trabalhar para Torres Novas. Aos 14 anos e por iniciativa própria, comecei a estudar de noite. Depois veio o serviço militar, o casamento e acabei por sair da aldeia aos 25 anos.

 

FN – Como era a aldeia há 50 anos?

JC – Completamente diferente. Estradas quase intransponíveis para carros, porque as carroças, essas passavam algumas com dificuldade. Cada vez que me lembro, quando desço agora do Outeiro Pequeno para a Fonte, o trajecto que fazemos e o que antigamente se fazia… Aquilo era tudo menos uma estrada. Só para carroças e carros de bois e com muita dificuldade. Os acessos eram indescritíveis. As próprias casas já na altura com uma construção antiga, muitas estavam degradadas. Hoje já se vêm casas novas e outras remodeladas e as ruas com as condições que antigamente não existiam. Na minha juventude eu e os meus colegas ou teríamos de ir para algum lado ou acabávamos por ficar no largo quando saiamos da missa. As brincadeiras das crianças eram na própria estrada onde se chegavam a fazer buracos para os mais diversos jogos. As pessoas tinham uma vida livre. Toda a vida das crianças que não fosse a de casa era a vida de rua concentrada ali no seu meio. Hoje os jovens e as crianças têm condições muitíssimo diferentes, bem por um lado, porque a evolução é necessária, o progresso é indispensável, mas o progresso às vezes trás consigo algumas vicissitudes que não são as mais lisonjeiras. Tudo isto verificava-se não só no Outeiro Pequeno, mas em todas as aldeias. As suas estruturas, as condições, as pessoas não terem água, não terem luz e viverem à luz do candeeiro de petróleo, da vela, da candeia de azeite, do petromax (só para os ricos). E todas essas condições de vida em que não haviam casas de banho, tínhamos que ir às fontes buscar os cântaros de água… Se nós hoje descrevêssemos com algum pormenor, os jovens de hoje ao lerem aquilo eram capazes de não acreditar. Ainda hoje me lembro que quando comecei a ir ao Outeiro Pequeno já com os meus filhos e lhes contava que com 11 anos saía de casa às 5 da manhã de bicicleta para vir para Torres Novas e que depois aos 14 anos comecei a estudar e chegava a casa por volta da meia-noite ou mais… No Inverno todo encharcado e em que as roupas eram mínimas e tinham que serem enxutas nos serões penduradas nas cadeiras junto da lareira ou ao pé de fogões de serradura para se poderem vestir no outro dia de manhã…

Andei vários anos consecutivos a fazer sozinho o percurso de noite de bicicleta. Depois comecei a ter colegas das Rendufas, de Vila do Paço e da Mata. Muitas das vezes, para não me cansar tanto, desligava o dínamo da bicicleta e ia às escuras. E o caminho de Torres Novas para o Outeiro Pequeno não tinha nesse tempo nada a ver com o caminho que é hoje. Passávamos nas Terras Pretas onde havia uma casa ou outra e entretanto não se encontrava praticamente mais nada. Era uma escuridão absoluta. Há um episódio que nunca mais me esquece, juntamente com um rapaz de Vila do Paço que já faleceu, que era um filho do padeiro, o “Rola”. Saímos os dois da escola por volta das onze e meia da noite e como chovia tanto, ao chegarmos ao Vale em Torres Novas, existia uma tasca onde havia perto também umas manjedouras, onde as pessoas quando vinham ao mercado à 2º feira, deixavam os burros. Foi ali que nos abrigámos dentro dessas manjedouras à espera que parasse de chover. O meu colega lembrou-se de um indivíduo que trabalhava na Fiação e Tecidos e que saia à meia-noite. Viemos para a estrada e pedimos ao indivíduo que dissesse ao pai dele para nos vir buscar, pois era impensável partir de bicicleta com a chuva que estava a cair. O pai dele veio buscar-nos numa carrinha, e ao chegar às Terras Pretas, ali me deixou e seguiu para Vila do Paço com o filho, e eu acabei por apanhar a mesma molha, porque tive que fazer o resto do caminho de bicicleta.

Para além desta, aconteceram as mais variadas situações caricatas, como por exemplo os polícias no Vale a mandarem-nos parar porque íamos às escuras com os dínamos desligados.

Ou seja, a vida não me foi fácil, mas foi gratificante. E hoje recordo essas coisas com saudade. 

 

FN – Que tradições é que existiam na aldeia há 50 anos?

JC – Muito poucas. O Outeiro Pequeno nessa altura não tinha por exemplo, uma associação que congregasse as pessoas, como já tinha por exemplo o Outeiro Grande com a Banda. As pessoas viviam um pouco dispersas. Em termos sociais não havia nada. Cada pessoa tinha que viver um bocado de si própria para si própria. Os mais velhos juntavam-se nas tabernas, particularmente ao domingo, que era o único dia em que não trabalhavam e ali jogavam às cartas, bebiam uns copos e embebedavam-se naturalmente, porque ali estavam várias horas. Depois resultavam por vezes alguns desconfortos familiares. Mas era aquilo que as pessoas tinham para fazerem a vida social, porque não havia de facto mais nada.

 

FN – Para além da música coral, que outras músicas preferida?

JC – Desde que seja música que me agrade é uma música que eu aceito com facilidade. Se há alguma coisa que ao ouvido me soe bem eu gosto… Gosto de fado desde que me pareça bem cantado… gosto de canção ligeira, lírica, ópera. Tenho um bocado dificuldade em me definir com um determinado tipo de música específica… desde que me agrade gosto

 

 

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