Uma vida a cuidar da morte

ANTÓNIO JOSÉ FRAGOSO SEGURO
 
Uma vida a cuidar da morte
 
 
 
 
 
 
 

Pobres, ricos, bonitos ou feios, todos precisaremos um dia do serviço de um coveiro. São poucos os que exercem a profissão, porque para a grande maioria das pessoas, é um ofício repleto de dificuldades porque lida com a morte dos outros.

O «Fruto da Notícia» falou com o coveiro da freguesia de Assentis, que desempenha a tarefa há quase 22 anos. António José Fragoso Seguro tem à sua responsabilidade os dois cemitérios da freguesia de Assentis. Apesar de ser um ofício duro ter que abrir as sepulturas, enterrar os mortos e ouvir os lamentos dos familiares, António José está contente e satisfeito com a profissão.

 

António José Fragoso Seguro nasceu no dia 12 de Fevereiro de 1952 na localidade de Vales de Cima, onde viveu até aos 12 anos. Os 12 anos seguintes foram vividos no Casal das Pimenteiras, donde saiu em 1976 para casar e fixar residência em Casais da Igreja. Hoje tem 54 anos e é o coveiro da freguesia de Assentis, tarefa que desempenha há 22 anos a completar no próximo dia 1 de Abril de 2007.

O coveiro que o antecedeu, o senhor Manuel de Vila do Paço, já estava idoso para continuar a desempenhar a profissão. Foi então que António José Fragoso Seguro foi convidado a trocar o trabalho na construção civil por conta de Albertino Leal e ingressar ao serviço da Junta de Assentis. Já tinha experiência em abrir covatos, porque às vezes era convidado a dar uma ajuda quando o trabalho apertava.

Hoje, passados quase 22 anos está contente e satisfeito com a profissão que desempenha nos 2 cemitérios da freguesia de Assentis – Casais da Igreja e Fungalvaz. Quando não há trabalho a efectuar nos cemitérios, António José desempenha outros serviços na freguesia.

 

A abertura de um covato pode demorar 90 minutos, mas também pode chegar às 4 horas na época do Verão. Tudo depende se o chão for de areia, ou se tiver que ser cavado à enxada. Questionado se prefere abrir as covas no Verão ou no Inverno, António José diz que prefere o Verão, “porque embora custe mais um bocadinho, cavam-se melhor e não se alagam. No Inverno é só água, lama e as covas podem alagar-se, pelo que tenho que utilizar a forma para segurar as terras. É que posso ficar entalado entre as campas e já não é a primeira vez que apanho um susto. No Inverno, as campas anexas, acabam por ficar sujas e tenho o trabalho da limpeza dos mármores. É necessário lavar as campas que ficam sujas porque senão as pessoas reclamam”.

Como em qualquer profissão, há sempre uma tarefa mais difícil de executar. Para António José é “apanhar as ossadas e ter por vezes que partir os caixões”. “É que a madeira de alguns caixões é dura e dificulta a decomposição do cadáver. Se alguns, no fim de 7 anos já estão todos desfeitos, outros porém existem, com 10 e 12 anos que ainda não estão completamente desfeitos. Nestes casos tenho que utilizar uma máscara devido aos cheiros. Também por vezes há o problema de alguns caixões zincados que vêm de longe, não são cortados e dificultam a decomposição”.

“Está a morrer muita gente nova…”

Com a experiência que adquiriu ao longo dos anos, refere que o melhor terreno é o de chão de areia. Se o chão for de barro não presta. No cemitério de Casais da Igreja só dois dos talhões é que apanham um pouco de barro.

Para reabrir uma covato é necessário esperar em média 7 anos, mas tudo depende da qualidade das urnas.

Para abrir uma cova, é necessário utilizar alguns utensílios: uma enxada, uma pá, forma para impedir a queda de terras e luvas para apanhar as ossadas.

Ao fim de tantos anos a desempenhar a profissão, verifica que as pessoas gostam do seu trabalho e que não têm apresentado reclamações. “Mas uma vez por outra, lá aparecem em dia de funeral algumas pessoas que refilam um pouco quando vêm com um copito a mais. Diz-se que «dia de funeral, dia de bebedeira», mas quando isso acontece não dou ouvidos, porque é tudo influência do álcool”.

Em tantos anos de serviço ainda não lhe aconteceu nenhuma situação caricata no desempenho da profissão.

Durante os enterros tem por vezes que aguentar a carga psicológica, gerada pelo incómodo de presenciar os lamentos e os gritos das pessoas. “Mesmo que não queira tenho que aguentar, mas por vezes dá mais choque quando o falecido é malta nova. Quando a pessoa é mais idosa também dá pena, mas o choque não é tão grande. Quando se trata de pessoas jovens, custa-me efectuar o enterramento depressa, pelo que não mando a terra de repente. Faço o trabalho com mais calma e mais preceito. De qualquer modo tenho que fazer o meu trabalho.”

Ao longo dos últimos anos tem verificado um aumento do número de pessoas novas que morrem: “Devido às doenças, em especial ao cancro, tenho notado que está a morrer muita gente ainda nova”, refere António José.

Sabendo que em média morrem anualmente cerca de 80 pessoas na freguesia de Assentis, muitos foram já os covatos que este coveiro teve que abrir em 21 anos.

Cada vez que há um funeral, recebe o boletim de óbito no qual toma nota do número do talhão e do covato onde o corpo vai ser sepultado, de modo a que informação seja depois registada na Junta da Freguesia. Conhece a planta dos cemitérios de cor e é com bastante facilidade que sabe identificar o local das pessoas falecidas desde há 5 anos.

Para além dos enterros, António José cuida da limpeza dos cemitérios e procura dentro dos possíveis manter os espaços limpos, porque são visitados por muitas pessoas.

O cemitério em Casais da Igreja está quase cheio. Cada vez mais os familiares dos falecidos acabam por adquirir os terrenos. “Tenho verificado que uma pessoa é sepultada num dia e no dia seguinte os familiares vão logo à Junta tratar de comprar o terreno”, refere António José.

Para dar resposta à falta de espaço no cemitério em Casais da Igreja, a Junta de Assentis vai proceder à sua ampliação para o lado esquerdo.

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