Uma fé “light”

 

Parar e pensar… Uma fé "light"

A maior parte dos portugueses considera-se católico. O catolicismo é a religião dos avós e dos pais. As pessoas vão amadurecendo e algumas identificam-se com o catolicismo praticado pela família. Umas têm uma relação pessoal com Deus e, às vezes, com algum santo. Rezam, conversam com Deus, fazem os seus pedidos e agradecimentos, pensam em Deus e falam de Deus para os outros. Fazem promessas e procuram cumpri-las com gratidão e fé. Procuram também viver a caridade, a solidariedade e a honestidade.

Muitos outros, são os chamados católicos não praticantes. São os que praticam o catolicismo ao seu jeito: não participam da vida da comunidade e apenas vão à Igreja em algumas ocasiões e datas especiais, quando precisam. Normalmente são os mais críticos a tudo o que se relaciona com a vida da Igreja.

A expressão “Eu cá tenho a minha fé!” é utilizada por muitos como argumento justificativo de que não necessitam de frequentar a Igreja, porque entendem que “aqueles que lá vão são piores do que eu…”.

Mas em dia de festa lá entram na Igreja para baptizar os filhos, acompanhá-los à primeira comunhão, à celebração do crisma e ao dia do casamento. Regressam outras vezes quando ocorrem os funerais de familiares.

É também nestas ocasiões que muitos exigem dos párocos aquilo a que entendem ter direito: uma cerimónia bonita para ficar bem nas fotografias e no vídeo. Quando os requerentes são informados de que é necessário ser efectuada uma preparação para a recepção dos sacramentos, muitos argumentam com a indisponibilidade da falta de tempo. Para estes já chegam os 60 minutos da celebração.

Mas que fé é esta que apenas só é visível em dias especiais de festa? Não será uma fé assente em pés de barro, uma fé de circunstância, de oportunismo, precária, oca, vazia, …?

Que fé é esta de quantos exigem o baptismo para os filhos, quando os próprios pais e até os padrinhos nem sequer frequentam a Igreja? Que garantias é que dão à Igreja de que as crianças baptizadas serão educadas na fé católica?

Quando se pergunta aos pais porque querem o baptismo para os filhos, muitas vezes não sabem explicar, o que denota uma motivação fraca. Algumas das motivações apresentadas parecem não ter sentido nenhum e são alicerçadas em superstições.

Estão os pais e os padrinhos conscientes quando são interrogados pelo sacerdote perante toda a assembleia nos seguintes termos:” Caríssimos pais: Pedistes o Baptismo para o vosso filho. Deveis educá-lo na fé, para que, observando os mandamentos, ame a Deus e ao próximo, como Cristo nos ensinou. Estais conscientes do compromisso que assumis?

Pais: Sim, estamos.

E vós, padrinhos, estais decididos a ajudar os pais desta criança nesta sua missão?
Padrinhos: Sim, estamos.”

Também a celebração do casamento não é muitas vezes levada a sério. Perante tantos fracassos matrimoniais, estarão os noivos conscientes quando efectuam o compromisso matrimonial nos seguintes termos:” Eu te recebo por minha esposa (meu esposo) e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

Que fé é esta de quantos desejam comparecer em dias de casamentos e funerais e que acabam por ficar à porta das igrejas em alegres conversas durante as celebrações, causando incómodo aos que estão do lado de dentro? Estará a fé num ramo de flores ou numa mão cheia de arroz?

Que fé é esta de quantos desejam chegar o mais rapidamente possível ao último ano catequético, de modo a receberem o sacramento do crisma, se logo depois deixam de participar nas celebrações dominicais?

Que fé é esta das pessoas arraigadas a uma religiosidade popular em que têm mais amor ao santo padroeiro do que a Deus? Será a festa do padroeiro a mais importante do ano litúrgico?

Que fé é esta de quantos querem a passagem da procissão com o santo padroeiro à sua porta, se durante o ano nunca precisaram de entrar na Igreja?

Que fé é esta dos que querem catequese e não celebram a eucaristia?

Que fé é esta de quantos prometem a Nª Srª de Fátima alguns euros a troco de um pedido?

Estes são apenas alguns exemplos da fé light dos tempos modernos. Uma fé pobre, sem referências, porque também o homem de hoje encontra-se cada vez mais desorientado perante as grandes interrogações da existência. Estamos a entrar na “era do vazio”?

 

Para terminar, cito Enrique Rojas, professor catedrático de psiquiatria na Universidade Complutense de Madrid que no prólogo de um livro refere o seguinte:
 

“O Homem de hoje parece-se muito com os denominados produtos light dos nossos dias: alimentação sem calorias e sem gorduras, cerveja sem álcool, açúcar sem glicose, tabaco sem nicotina, coca-cola sem cafeína e sem açúcar, manteiga sem gordura… um Homem sem essência, sem conteúdo, entregue ao dinheiro, ao poder, ao êxito e ao prazer ilimitado e sem restrições.

O Homem light carece de pontos de referência, vive num grande vazio moral e não é feliz, ainda que tenha materialmente quase tudo. Isto é grave.

Há que conseguir um ser humano que esteja disposto a saber o que é bem e o que é mal, que se apoie no progresso humano e científico, mas que não se entregue à cultura da vida fácil, onde qualquer motivação tem como fim o bem-estar, um determinado nível de vida ou o prazer sem limites. Um homem consciente de que não pode haver verdadeiro progresso humano enquanto este não se desenvolver numa base moral.”

 

In “O Homem Light” – Enrique Rojas

 
 

João  Filipe

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