Reportagem no Lagar

Da azeitona ao azeite
Reportagem no lagar em Carvalhal do Pombo
 
 
 
 
 
 

Assentis era há 60 anos atrás a freguesia do concelho de Torres Novas que detinha os maiores índices de produção de azeite, bem como o maior número de lagares.

A actividade oleícola detinha um importante papel económico no seio da comunidade da freguesia, constituindo um importante meio de subsistência. O fabrico de azeite conheceu uma forma artesanal de produção e necessitava de muitos braços para que um lagar estivesse apto a funcionar.

Preciosa Correia controla a subida da azeitona para ser lavada

Segundo documentação da época, a que o «Fruto da Notícia» teve acesso, em 1942 existiam 24 lagares que estavam distribuídos por toda a freguesia. Em 1971 já só existiam 12. Esta importante riqueza agrícola que caracterizou a nossa freguesia, está desde 1994 simbolizada no brasão da freguesia, representado por uma oliveira e por duas pedras de lagar, as mós. (A autoria do brasão e bandeira é de João Carlos Lopes e a ordenação heráldica do brasão e bandeira foi publicada no Diário da República, III Série de 14/09/1994).

Em Outeiro Pequeno também existia um lagar, o qual pertencia a Francisco Gonçalves. Hoje apenas sobram algumas partes desse equipamento como são por exemplo as mós que estão em poder de Maria Vieira. (ver foto na página 12).

Actualmente existem apenas dois lagares na freguesia – um em Fungalvaz e outro em Carvalhal do Pombo.

Em plena época da colheita da azeitona e no auge da sua laboração, o «Fruto da Notícia» visitou no início do mês de Novembro o lagar de António Veríssimo das Neves, em Carvalhal do Pombo, para acompanhar todo o processo, desde o momento em que a azeitona entra no lagar, até à sua transformação em azeite.

 

A oliveira que todos conhecemos, mãe das azeitonas que produzem o azeite que consumimos, pertence à espécie Olea europea L. e é uma árvore de porte médio, muito resistente, com raízes que atingem os 6 metros. São conhecidas cerca de 400 espécies de oliveiras. Têm um crescimento lento e normalmente só entram em produção a partir do quinto ano. A oliveira floresce na Primavera e o fruto começa a formar-se para ir amadurecendo. Quando a azeitona passa da cor verde para preto as pessoas começam a apanhá-la, trabalho que ainda é efectuado à mão ou com o recurso a varas (bate-se a árvore com varas flexíveis para que as azeitonas caiam sobre os panos estendidos debaixo da oliveira).

Em média, uma oliveira dá 20 Kg de azeitonas, sendo necessário cerca de 5 a 6 Kg para produzir 1 litro de azeite.

Com o início da colheita da azeitona a meio do mês de Outubro, abriram os lagares com a finalidade de transformarem os frutos no tão precioso azeite.

 

António Neves enseira a massa da azeitona

A produção de azeitonas no corrente ano é grande e os trabalhadores do lagar não têm mãos a medir para satisfazer o mais rapidamente possível todas as pessoas que ali se deslocam para entregar a azeitona que apanham. O sistema utilizado consiste na marcação do dia para a laboração da azeitona, no sentido de evitar grande acumulação de lanços de azeitona no armazém. Antes da abertura do lagar foi necessário efectuar todo o trabalho de limpeza das instalações e máquinas.

A azáfama é generalizada em todas as secções do lagar entre as 7 horas da manhã até à meia-noite onde são laborados diariamente entre 23 a 24 lanços de azeitona.

São mais de 12 mil quilos de azeitonas que diariamente ali são transformadas. Se em média o lagar estiver aberto durante um mês e meio, o total vai ultrapassar as 550 toneladas.

É um lagar familiar em que trabalham 7 pessoas, entre as quais o pai, a mãe e 3 filhos.

António é o responsável pela recepção da azeitona

António, um dos filhos do proprietário do lagar é o responsável pela recepção da azeitona que vai chegando um pouco de todo o lado. A azeitona é colocada em grandes caixas plásticas, pesada e devidamente identificadas com o nome do respectivo proprietário. Cada caixa  pode levar até 1 lanço, o que corresponde a 550 Kgs. As caixas são abertas e perfuradas e têm por objectivo evitar a fermentação dos frutos.

Em fila de espera já estão cerca de 30 lanços de azeitona prontos a iniciar um de cada vez o processo de transformação.

Preciosa Correia tem 66 anos e é a esposa do proprietário do lagar. Questionada sobre a antiguidade do lagar, responde que o mesmo já deve ter cerca de 150 anos. Ao longo destes anos, o lagar já teve vários proprietários, entre os quais, um deles foi o Pe. Reis Escudeiro.

Preciosa Correia tem a tarefa de fazer subir as azeitonas, com a ajuda de um tapete rolante. As máquinas eléctricas vieram dar uma grande ajuda aos lagareiros. Hoje o trabalho está mais facilitado segundo conta a D. Preciosa: “Antigamente era tudo manual, hoje com as máquinas eléctricas produz-se mais. Hoje é todo um trabalho mais de cabeça. Não pode haver atrasos em nenhuma secção, caso contrário, os outros trabalhadores vão ter que ficar à espera.” A azeitona desce para um lavadouro onde é lavada e depois segue para uma outra secção onde está uma máquina que as irá triturar. Preciosa Correia aconselha as pessoas a limpar a azeitona. Caso contrário, o seu trabalho fica mais dificultado, pois tem que efectuar um maior esforço a empurrar a azeitona para dentro da máquina, pois esta não a puxa tão facilmente. A limpeza é uma operação indispensável, já que aquando da apanha, é de todo impossível eliminar as folhas e ramos que vêm conjuntamente com a azeitona.

A lavagem da azeitona é efectuada na máquina imediatamente antes da moagem, de modo a remover resíduos de terra, folhas, etc.

Hélder controla a centrifugadora

Do lavadouro, a azeitona segue para a trituradora. Antigamente eram utilizados os moinhos de pedra (mós). É nesta secção que trabalha o proprietário do lagar, que juntamente com um outro homem têm a tarefa de enseirar a azeitona moída que sai da máquina. Os dois homens agarram numa seira de cada vez, colocam-na sobre uma base giratória ao mesmo tempo que a massa vai caindo. Depois de rodar uma volta completa, a seira já está cheia e é colocada uma após outra, numa pilha. Quando a pilha de seiras já tem a altura suficiente e necessária, é depois levada para a prensa onde são apertadas.

João Carlos efectua a medição do azeite

Hélder controla o sistema onde vai ser extraído o azeite.

Actualmente a separação do azeite é feita através da centrifugadora, que aumenta ligeiramente a produção, pois executa uma separação mecânica mais eficiente.

Numa outra divisão do lagar está uma máquina responsável pelo aquecimento das águas necessárias a todo o processo. Para o seu funcionamento é utilizado o bagaço final do processo, que antes é triturado numa outra máquina, após o qual é colocado dentro da caldeira como combustível.

João Carlos é o encarregado da fase final do processo. Questionado sobre a qualidade do azeite deste ano, refere que o “azeite do ano anterior era de melhor qualidade”. No presente ano, um lanço de azeitona está a dar cerca de 50 litros de azeite (bruto), ou seja 1 Kg de azeitona dá 8%.

É o João que efectua as medições do azeite e o armazena dentro de recipientes para posterior entrega aos clientes.

 

A produção de azeitonas do presente ano é bastante elevada, mas muitos dos proprietários começou a verificar no início de Novembro a existência de azeitona estragada nas árvores.

Segundo Preciosa Correia, as azeitonas verdeais produzem mais azeite, mas são as lentriscas que produzem um azeite mais fino.

Agora que está concluído todo o processo de fabricação do azeite, está pronto a ser utilizado na cozinha.

Bom apetite!

 
 
 
 

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