Os últimos totós

OS  ÚLTIMOS  TOTÓS
 
 
 

Os cabelos sempre constituíram excelentes adornos do rosto, tidos historicamente para a mulher como símbolo de sedução e para o homem como demonstração de força. Afrodite cobria a sua nudez com a loira cabeleira e Sansão derrotou os filisteus quando recuperou os seus fios preciosos.

Ao longo dos anos, homens e mulheres tiveram grande cuidado com os cabelos. Além da grande invenção grega, que foram os salões de cabeleireiro, a profissão de barbeiro também ficou célebre. Sem dúvida, pelas mãos dos gregos abriram-se portas ao mundo mágico do cabeleireiro, revelando que estes são os melhores profissionais para cuidarem da nossa imagem, particularmente dos nossos cabelos.

Já foram perfumados com óleos raros e preciosos, matizados com vários tons ou descolorados. Já se utilizaram faixas, laços e outros acessórios por cima dos cabelos lisos compridos, rabos-de-cavalo, tranças e carrapitos. A moda lançou os caracóis e os rolos de cabelos.

Os cabelos viraram objecto de estudo e as suas formas ganham o status de design. As exposições internacionais, com grande sucesso de público, comprovam uma verdade admitida somente na frente do espelho: homens e mulheres, de todas as idades, preocupam-se muito com os cabelos. E não é de hoje.

 

Actualmente, a grande maioria das mulheres recorre frequentemente aos cabeleireiros para arranjar o cabelo. No entanto, ainda existem algumas que dispensam os salões e os modernos penteados, dado que continuam com o mesmo penteado há mais de 70 anos e sem necessidade de recorrer a nenhum profissional da arte.

O «Fruto da Notícia» captou no início do mês de Setembro a fotografia que ilustra a capa desta edição, onde duas outeirenses caminham lado a lado usando no alto da cabeça uns bonitos carrapitos. Hoje em dia, é muito raro encontrar este tipo de penteado.

Foi esta bonita fotografia que deu origem a este artigo. As protagonistas são vizinhas e residem em Outeiro Pequeno – Maria Vieira de 84 anos e Cidalina de Sousa Taxa de 85.

Desde muito novas que começaram a fazer o piço – é assim que ambas denominam o carrapito, picho ou totó.

“Desde os 14 anos que faço o piço e nunca fiz outro penteado durante toda a vida. Sempre me penteei assim e desde garota que nunca cortei o cabelo”, refere Maria Vieira. Também Cidalina Taxa começou cedo a fazer o piço – “Eu ainda andava na escola em Outeiro Grande e nunca mais cortei o cabelo. Até no dia do meu casamento fui de piço. Recordo-me de ouvir algumas raparigas a comentar o facto junto ao muro do José Gonçalves: “nem agora quis mudar! É piço à mesma!” diziam elas.

Todos os dias de manhã estas duas mulheres tratam de arranjar o piço. “É logo a primeira coisa que faço depois de me levantar, lavar e vestir.”-  diz Maria Vieira.

Utiliza uma bata de mangas compridas de modo a proteger a roupa dos cabelos. Em primeiro lugar tem que desfazer o piço. Retira os ganchos, desfaz a trança e utiliza um pente para pentear-se. E nem precisa de utilizar o espelho. Este método diário não chega a demorar quinze minutos. O mesmo método é utilizado também por Cidalina Taxa. Para começar a fazer o piço faz uma nova trança com 3 tiras de cabelo. Maria Vieira enrola a ponta do piço com um bocadinho de linha preta. Agora que a trança está pronta é só enrolá-la e prendê-la com a ajuda de ganchos. Passa as duas mãos pelo cabelo e coloca os ganchos no devido local de modo a poderem segurar o carrapito.

Maria Vieira utiliza 3 ganchos de plástico denominados de “tartaruga”, mais 4 em arame. Cada um tem a sua posição. Cidalina Taxa prende o piço com apenas 2  ganchos de tartaruga mais 3 de arame.

Apesar de algum cansaço que já denotam de vez em quando com o levantar dos braços, não se conseguem imaginar com outro tipo de penteado.

Cidalina Taxa referiu que quando a sua filha Virgínia casou, esta muito lhe pediu para efectuar uma permanente. Mas nem nessa data especial conseguiu demover o pensamento da mãe que lhe respondeu “não faço e não faço”. E não fez!

Durante a sua vida nunca ninguém proibiu nem chateou Maria Vieira por causa do penteado que usava. “Sempre respeitaram a minha ideia de não cortar o cabelo”. Mas com o avançar da idade começa a interrogar-se sobre o futuro: “Se algum dia não puder pentear-me e fazer a trança, o que é que eu faço? Não sei…nem toda a gente tem jeito para fazer uma trança.”

Já no tempo de mocidade de Maria Vieira que não existiam muitas raparigas a usar o piço. Algumas faziam tranças e efectuavam um penteado tipo ferradura. Outras, faziam apenas um rolinho de cabelo.

As expressões “vou arranjar o piço”, “tenho o piço a cair”, “hoje o piço não ficou bem feito”, são vulgarmente utilizadas por estas duas mulheres. Ambas dizem que já ouviram dizer que lá mais para o norte do país o nome “piço” é considerada uma asneira.

Correcto ou não, é assim que ele é chamado em Outeiro Pequeno por estas duas mulheres há mais de 70 anos. Agora com a idade que têm já não querem nem ouvir falar em mudar de penteado e não estão nada arrependidas.

Vai ser piço até morrer!

 
 

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