Basquetebol em cadeiras de rodas

MOREIRAS GRANDES
 
Basquetebol em cadeiras de rodas: Uma lição de vida
 
 

A Delegação Distrital de Leiria da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) esteve no passado domingo, dia 15 de Outubro, no pavilhão polidesportivo do Centro Recreativo e Cultural de Moreiras Grandes, onde realizou um jogo de demonstração de basquetebol em cadeiras de rodas. Os 10 jogadores dividiram-se em duas equipas e proporcionaram ao público presente (cerca de uma centena) um espectáculo desportivo único, dado que para a maioria foi a primeira vez que assistiu a esta modalidade desportiva.

Foi um jogo bem movimentado com o público presente a aplaudir cada vez que uma equipa encestava a bola no cesto adversário.

Os jogadores presentes já foram vice-campeões a nível nacional por 2 anos consecutivos. A demonstração que efectuaram em Moreiras Grandes foi uma autêntica lição de vida, ao mostrarem que, apesar das deficiências, é importante a prática da actividade física de modo a melhorar a qualidade de vida, bem-estar e de saúde. Mostram assim que “deficientes” são aqueles que não se dispõem à realização de actividades que contribuem para uma vida mais saudável, morrendo nos sofás, computadores, frente à televisão …

 

O basquetebol em cadeiras de rodas é um desporto praticado por indivíduos portadores de deficiência. É baseado no basquetebol, mas com algumas adaptações para reflectir a presença da cadeira de rodas e para harmonizar os diferentes níveis de deficiência dos jogadores.

É uma modalidade que não tem grandes dificuldades, muito pelo contrário proporciona alegria, companheirismo e todos os valores que este desporto gera.

Um bom manejo da cadeira de rodas e um controlo da bola em movimento e parada, são as principais tácticas desempenhadas pelos jogadores.

 

Portugal é caracterizado por ser o país da União Europeia com o menor número de praticantes de desporto (deficientes ou não), situação que tem reflexos evidentes relativamente aos portadores de deficiência, uma vez que a sensibilização é pouca ou quase inexistente.

Entre as causas principais temos os obstáculos existentes para a prática de desporto adaptado – as barreiras arquitectónicas, a inadaptação dos transportes públicos a estas pessoas, a falta de especialistas, do interesse dos meios de comunicação, a dificuldade em conseguir financiamentos e a pouca formação e informação das populações, em geral.

O material de competição é bastante caro e ninguém está disposto a patrocinar, porque a sociedade civil não está sensibilizada e só gosta de patrocinar actividades que tenham visibilidade (a lógica comercial impera sobre todas as outras). Se a imprensa não dá a devida cobertura, os potenciais patrocinadores afastam-se. É um ciclo vicioso que só muda com a mudança da mentalidade das pessoas, mas é um processo difícil e muito lento.

São necessários esforços para promover cada vez mais o desporto adaptado, uma vez que a prática desportiva é uma forma privilegiada de integração social e da promoção da auto-estima das pessoas com deficiência.

E não esquecer que tudo aquilo que se fizer a pensar na população com deficiência está-se a fazer para todos, porque qualquer pessoa pode vir a ter no futuro dificuldades na mobilidade.

O público presente viu a força de vontade e o talento dos jogadores. No final, as equipas foram aplaudidas de pé pelo público e foi dada a oportunidade a todos os presentes de poderem tomar contacto com as cadeiras e de darem algumas voltas no recinto onde foi disputado o jogo.

Esta iniciativa foi conseguida por intermédio de António Leal da empresa Leais & Oliveira, Lda.

Antes do início da partida, António Leal, dirigiu-se ao público presente e fez um apelo aos jovens para praticarem desporto. Convidou ainda os pais a incentivarem os filhos e a apoiá-los na prática desportiva. E referiu ainda que o jogo que iriam assistir “serve para mostrar à juventude que apesar de tudo, os deficientes gostam daquilo que fazem. Se os deficientes são capazes, porque é que vocês não são?”

 

O «Fruto da Notícia» falou com Manuel Sousa, vice-presidente da delegação distrital de Leiria da Associação Portuguesa de Deficientes. Aos 53 anos, Manuel Sousa já é um veterano. Foi o primeiro paraplégico a saltar de pára-quedas. Praticante de desporto há mais de 20 anos, destacou-se no atletismo, maratona e meia-maratona, tendo participado em algumas competições em vários países, como por exemplo, Japão e Estados Unidos. Nas corridas de atletismo sentia-se como peixe na água. Mas, devido às muitas lesões nos braços derivadas de muitos anos de prática desportiva e de alguns abusos físicos, teve que mudar de modalidade. Hoje integra a equipa de basquetebol em cadeira de rodas, juntamente com vários colegas paraplégicos, amputados e com outras deficiências.

 

 

Fruto da Notícia (FN) -O Basquetebol em cadeiras de rodas requer muito exercício físico?

Manuel Sousa (MS) – Durante o jogo, não estamos um momento parados. É sempre a girar num pára e arranca constante. Para o conseguir, temos que ter uma certa preparação física, que inclui dois treinos por semana. Já fomos vice-campeões 2 anos consecutivos e debatemo-nos bem com o pessoal de Lisboa, que têm mais possibilidades do que nós em questões materiais, infra-estruturas e apoios. Um dos grandes problemas que temos é a nível financeiro, mas cá vamos andando com força de vontade e com bastante alegria.

 

(FN) – Como é que caracteriza este desporto?

(MS) – Este desporto é uma forma de integração no meio social e ao mesmo tempo, um meio de reabilitação. Enquanto estamos aqui não pensamos em mais nada. Não se pensa na deficiência, nas dificuldades que aparecem no dia-a-dia. Isto tem tudo de bom. É pena que não apareçam mais pessoas novas para junto de nós para praticar este desporto que é bastante gratificante a nível físico e psicológico.

 

(FN) – Quais são as principais dificuldades que a vossa associação enfrenta?

(MS) – É a aquisição de material. As cadeiras são caríssimas. Cada uma custa cerca de dois mil euros. E temos muita dificuldade. Não temos apoio do Estado. O apoio que temos é de algumas pessoas privadas. Por exemplo, as cadeiras que temos foram oferecidas por um senhor que viu um anúncio no jornal e que nos ofereceu 10 cadeiras de basquetebol e 4 de atletismo. Isto para nós foi um sonho concretizado. Agora, o material já está a ficar um bocadinho obsoleto. Esperamos dias melhores, de modo a obtermos mais material.

Tínhamos também dificuldade nas deslocações, mas já conseguimos ter uma carrinha com apoios pontuais de algumas empresas e autarquias. É assim… vamos vivendo de mão estendida.

A associação tem cerca de mil associados no distrito de Leiria. Apesar de ser um distrito enorme não têm os apoios que devia ter. É uma associação reivindicativa. As modalidades desportivas vieram por acréscimo. Levamos o nome de Leiria e da nossa associação a vários pontos do país. Para a semana vamos ter um colóquio de 2 dias em Vieira de Leiria com a participação de todas as associações a nível do país. São sempre coisas que acarretam despesas e lá vamos andando de mão estendida para conseguir obter os meios necessários.

 

(FN) – E os obstáculos na vida diária de um deficiente físico?

 

(MS) – As barreiras arquitectónicas são muitas. As pessoas não têm sensibilidade. Desde os próprios construtores até às câmaras municipais que passam as licenças. As pessoas ainda pensam que só acontece aos outros.

Se nos dessem todas as bases de modo a que diariamente fizéssemos a nossa vida diária sem a ajuda de ninguém, todos ficaríamos a ganhar. Enquanto não temos, temos que ter sempre uma segunda ou terceira pessoa para nos ajudar a subir uma escada, saltar um passeio,… Coisas muito simples de obter… A nossa vizinha Espanha dá-nos uma lição nesse aspecto. Lá, um simples pedreiro já sabe que tem que obedecer àquelas normas, pois caso contrário a fiscalização vai e destrói tudo. Cá em Portugal é o que se vê e o que se sabe… É uma pena, mas temos que saber viver com as dificuldades e vamo-nos debatendo de modo a que não aconteça no futuro. 

 
 
 

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