Francisco Lopes Pereira

"Tenho prazer em dar as peças que faço"
 
 
 

Há cerca de 20 anos Francisco Lopes Pereira descobriu que tinha talento para o artesanato. Começou por fazer em madeira a miniatura de uma carroça e logo depois fez o burro. Utilizando madeira e fósforos executa diversas peças de artesanato como moinhos, igrejas e outros monumentos nacionais e internacionais como a Torre de Belém ou a Torre Eiffel. As peças são depois oferecidas porque esse é o seu lema: “Gosto de dar e tenho prazer em dar”.

O «Fruto da Notícia» foi conhecer a vida e a arte do artesão.

 

Francisco Lopes Pereira nasceu no dia 27 de Julho de 1930 em Casal da Fonte, aldeia da freguesia de Assentis, donde era natural a sua mãe Líbia de Jesus. O seu pai, António Lopes era conhecido pelo nome de António “da Josefina Saldanha” e era natural de Outeiro Pequeno.

Quando os seus pais casaram ficaram a residir em Casal da Fonte na casa de Maria, irmã de Líbia. Foi aí que nasceram os primeiros filhos: Francisco, Maria e Daniel. Entretanto, a proprietária precisou da casa e o senhor António Lopes decidiu construir uma habitação própria nos Tojais – Outeiro Pequeno, onde depois nasceram mais dois filhos: o João e a Celeste. O casal ainda teve mais 4 filhos mas que faleceram quando eram bebés.

 

Os primeiros anos

 

Enquanto criança e até aos 17 anos, o Francisco viveu nos Tojais. Questionado sobre como era os Tojais no seu tempo de criança refere: “As habitações que existiam nos Tojais eram poucas. A primeira a ser construída foi a do Lourenço, depois a do meu pai, a do tio João “Corigo”, a da prima Emília e Mariazinha, depois da Jesuína e do irmão “Ripiupiu””. Havia poucas casas mas com muitas crianças. Residiam nos Tojais mais de 20 crianças. Frequentavam a catequese em Outeiro Pequeno que era dada pela Maria “da Doutrina”. Francisco ainda se recorda de ouvi-la dizer à sua mãe: “Vocês têm por obrigação de fazer uma catequese só para os Tojais porque têm lá miúdos suficientes”.

Francisco foi crescendo e começou a frequentar com mais regularidade o Outeiro Pequeno. E foi aí que fez grandes amizades. “É daí que tenho mais recordações das brincadeiras, quando não tinha escola e depois da catequese. Não desfazendo os outros, o Felicíssimo Mecha é um dos maiores amigos que tenho na terra. Era do mesmo ano que eu assim como o Júlio dos Reis e o Júlio “da Fonte”. Éramos 4 grandes amigos. Para onde um ia, iam os outros todos. Nesse tempo brincávamos muito às escondidas e jogávamos à bola atrás da capela. Ainda hoje me recordo de um episódio que aconteceu com o José Saraiva. Todos os miúdos estavam a jogar às escondidas e por fim, só faltava aparecer o José. Todos gritávamos: “Ó Zé aparece…”Mas corremos rua abaixo, rua acima e ele nunca mais aparecia. Fomos ao canto onde morava e apareceu a mãe a perguntar o que queríamos ao Zé.” Ele já está na cama!”, disse a mãe. Foi para a cama e todos andáramos à procura dele.”

 

 

A  escola

 

Francisco frequentou a escola primária de Moreiras Grandes, onde tirou apenas a 3ª classe. “A professora Ana era mesmo má para mim. Batia-me e eu tinha medo e fugia para não ir à escola.”

As sovas que apanhou, fruto da educação rígida que era ministrada nas escolas em tempos antigos, ficou para sempre gravada na sua memória. “- Um dia fui chamado ao quadro para resolver um problema e não fui capaz de o fazer. A professora bateu-me com a mão na minha nuca e a minha testa bateu no quadro que  até vi estrelas. Um outro aluno foi tentar fazer o mesmo problema, também não o conseguiu e foi sovado. O terceiro, como era o menino bonito lá da escola e levava de vez em quando um cabazinho de uvas ou de laranjas para a professora, também não resolveu. Mas a professora mandou-o para o lugar e só lhe disse: -Vai para o lugar que és tão bom como eles! – Mas ficou livre da sova!

Deslocava-me dos Tojais para as Moreiras Grandes na companhia dos meus irmãos João e o Daniel. Muitas das vezes eu ficava a meio do caminho. E andava todo o tempo das aulas pelas fazendas aos ninhos, a brincar em Moreiras Grandes ou vinha para a Fonte brincar com o Júlio “da Fonte”. Quando os meus irmãos regressavam da escola eu apanhava-os no caminho e regressávamos todos a casa..

A professora começou a aperceber-se das muitas faltas do Francisco e perguntou aos irmãos o motivo. Como eles responderam: Não sei…”, a professora mandou um bilhete para entregarem ao pai. Avisado pelos irmãos, o Francisco pouco se importou, dado que os pais eram analfabetos e não sabiam ler nem escrever. Quando o irmão Daniel contou à mãe o teor do bilhete, o Francisco explicou –lhe que já não ia à escola há vários dias e que para lá não voltava porque a professora lhe batia. Dia após dia cada vez mais o Francisco ganhava medo da professora. Ele não se considerava um pouco “burro”, porque segundo conta: “havia lá mais burros do que eu”. O problema foram os castigos infringidos pela professora.”

A mãe é que não teve meias condescendências e obrigou-o a ir à sua frente até à escola com a ameaça de uma vara. E para piorar as coisas ainda deu mais força à professora dizendo-lhe: “ – É chegar-lhe mais porque ele merece…”

 

 

Aos 11 anos trocou a escola para ir cavar

 

O pai quando tomou conhecimento da ocorrência também foi um dia à escola para averiguar a situação. E o Francisco lá confrontou a professora das sovas que apanhou tendo os restantes alunos por testemunhas.

O pai perguntou ao Francisco:

 – Não queres vir mais à escola? Ele disse que não e ele logo retorquiu: – Então vens para o pé de mim cavar!. E assim foi, livrei-me da escola e fui cavar e fazer recados na empresa “Oliveira Dias” em Vila do Paço, onde o meu pai também trabalhava como capataz.”

Permaneceu lá dos 11 aos 17 anos onde foi cavador e trabalhou com carros de bois. A empresa tinha vários ramos: negociava em vinhos, azeite, cereais, possuía muitas propriedades e dava emprego a muitas pessoas nos armazéns e nos campos.

Alguns anos depois, a empresa faliu e foi trabalhar juntamente com o irmão Daniel e o pai por conta do João Bernardo numa fábrica de fazer tijolo em Vale Seixo, perto da Atalaia. Depois andou nos trabalhos agrícolas por conta de Francisco Gonçalves em Outeiro Pequeno entre outros.

Mas o trabalho era incerto e Francisco precisava de trabalhar para comer. – Muitas vezes saía de manhã cedo de casa com uma enxada às costas e perguntava a várias portas se alguém tinha trabalho para mim. Como algumas vezes tinham outras não e eu tinha que comer todos os dias, foi então que decidi ir pedir ajuda à prima Maria José para ver se o namorado Manuel de Sousa me arranjava trabalho em Lisboa.

 

O trabalho na Fábrica do Material de Guerra

 

– Só tive de tratar de toda a documentação necessária e esperar por completar os 18 anos, idade mínima de então para poder tirar o Bilhete de Identidade. E lá fui para Lisboa trabalhar na Fábrica Militar de Braço de Prata, conhecida pela Fábrica do Material de Guerra onde permaneci numa primeira fase durante 4 meses. Devido a uma enorme falta de trabalho, a empresa despediu-me juntamente com muitos outros, entre os quais o Felicíssimo e o Joaquim Sousa. Entretanto fui à inspecção e à tropa. Mas quando acabou a tropa fui novamente chamado para a mesma fábrica e por lá fiquei 40 anos. Fui colega de outros outeirenses que aí trabalharam: Luís Gonçalves, Faustino Reis, Simão Reis, Felicíssimo “da Maria Teresa” e Manuel de Sousa.

Começou como servente, depois ajudante e por fim operário. Trabalhou agarrado a uma máquina torneiro-mecânico muitas das vezes das 8 da manhã às 8 da noite e também trabalhou por turnos durante a noite. Muitas terão sido as peças que lhe passaram pelas mãos e que foram incorporadas em espingardas G3 e nas armas HK21 (patente alemã) e FBP (arma utilizada pelos pára-quedistas). Com o passar dos anos as dores nas costas obrigaram-no a ir ao médico, que lhe diagnosticou problemas na coluna. Como não podia estar muito tempo em pé foi aconselhado a reformar-se, o que veio a acontecer aos 58 anos de idade.

 

O casamento

 

Alguns anos depois e durante o casamento de um primo que teve lugar a 27 de Junho de 1955,  Francisco conheceu Maria Letícia Pereira, natural do Casal da Fonte. Letícia foi ajudar a mãe que era a cozinheira da boda. A partir desse dia o namoro foi por cartas, porque ela servia em Torres Novas e ele trabalhava e residia em Lisboa. Em Agosto do mesmo ano, Francisco veio à terra durante 8 dias e depois pelos Santos (Novembro) veio combinar com os pais o casamento que teve lugar ainda nesse ano a 18 de Dezembro. Francisco tinha então 25 anos e Letícia 27. O período do namoro foi curto, mas Letícia diz que: “o namoro continuou depois do casamento e que ainda hoje namoram muito”.

Do casamento nasceram 6 filhos: Maria Filomena, António Manuel, José Luís, Isabel e as duas gémeas Líbia Maria e Maria José. Actualmente Francisco e Letícia têm 4 netos e 2 bisnetos.

 

O regresso à aldeia

 

Francisco viveu com a esposa em Olivais Sul – Lisboa até à idade em que foi reformado. Com os filhos já amparados e habituado a conviver com muitas pessoas, Francisco e a esposa trocaram a capital pela terra onde nasceram, Casal da Fonte. Fizeram obras numa casa e por cá ficaram. Mas o motivo que o levou a deixar Lisboa, repetiu-se na aldeia: “Não sou homem de taberna nem de café e então decidi que tinha que me dedicar a alguma coisa para me entreter.

 

O artesão

 

– Um dia fui a uma serração em Assentis e vi lá umas tábuas jeitosas cujo destino era serem queimadas.

A proprietária ofereceu-as e Francisco a partir daí numa mais largou a madeira. As primeiras peças que fez foram carroças.

As primeiras rodas eram muito mal feitas. Era tudo à mão, à  navalha e ao serrote. Algumas rodas saíram quase quadradas. Depois comecei a aperfeiçoar-me e pedi ajuda ao meu filho. Este fez-me um torno para tornear madeira. Depois das carroças comecei a fazer os burros para os engatar às carroças. Com um bocado de madeira grossa e um desenho em metal fui chapando o desenho em cima da madeira, fui cortando e aperfeiçoando os cortes e assim, começaram a “nascer” os burros.

Foi há cerca de 20 anos que Francisco Pereira descobriu este talento para o artesanato depois de 40 anos a trabalhar com ferro.

Desde carroças, galeras de bois, noras, igrejas, capelas, casas, moinhos e outras peças estão um pouco por toda a habitação. Entre elas está a Igreja Paroquial de Assentis  situada em Casais da Igreja, a Capela do Casal da Fonte, uma catedral dos Açores, um mosteiro de Penafiel, a Torre de Belém, vários moinhos, a Torre Eiffel entre outros.

As ideias vão surgindo e Francisco coloca-as em prática: – Tiro-as da minha cabeça. Basta ver uma fotografia numa revista, ou passar num relance alguma imagem na televisão. E penso para comigo de que sou capaz de fazer aquilo que vejo. E faço-o”. No entanto não sabe se está tão perfeito como a imagem que viu na televisão. Mas foi a imagem gravada com que ficou.

As carroças e os burros são da sua imaginação, porque antes de ir para Lisboa trabalhou com carros de bois na empresa “Oliveira Dias” em Vila do Paço.

São vários os materiais que utiliza: madeira, fósforos, papelão. É um grande consumidor de fósforos, dadas as várias peças que executa com fósforos queimados. Uma Torre Eiffel, por exemplo leva para cima de 2.800 fósforos (só contando os inteiros). O procedimento que executa é o seguinte: Abre uma caixa risca um fósforo e tudo arde ao mesmo tempo. Só tenho que apagar tudo rapidamente. Depois, utilizo papelão, cola e pregos tipo “sapateiro”.

O trabalho mais difícil é a colagem dos fósforos, porque têm que ter uma certa escala de um para outro e as partes queimadas têm que ficar alinhadas consoante os efeitos que se quer dar. Depois, ainda utiliza a lixa e para acabar enverniza todas as peças.

As limas, os canivetes, os serrotes, o engenho de furar, o torno, a lixa são algumas das ferramentas necessárias para executar as suas obras.

E os trabalhos são feitos ao pormenor. Numa carroça com burro, podem ser observadas todas as peças que a compõem (rodas com raios, travessa do travão, manípulo do travão, …) e os apetrechos necessários para engatar o burro. Para os moinhos, alguns já dispõem de um mecanismo construído de modo a funcionarem com pilhas. E outras peças possuem iluminação.

Das inúmeras peças que já fez ao longo de 20 anos, as que maior prazer lhe dão a fazer são as que oferecem mais dificuldade. Quanto ao tempo que demora na execução de cada uma é variável, porque não o regista. Tanto pode estar um dia inteiro numa dedicação absoluta a uma peça, como estar apenas uma hora e chatear-se quando alguma coisa não corre bem. E quando isso acontece, tem a solução: – Coloco-a de parte durante algum tempo e vou dar uma volta. Depois volto a pegar-lhe. Algumas vezes só lhe pego no dia seguinte.”

 É num anexo à sua habitação que tem a oficina onde executa a sua arte. Quando para lá vai, avisa a esposa: “ – Vou para os meus aposentos…”.

Se no início tudo era efectuado à mão, hoje já dispõe de algumas ferramentas mais modernas que o auxiliam: lixadeira eléctrica, torno para tornear as rodas, máquina de furar, etc.

Nem sempre o formato da peça que inicialmente estava em mente é o produto final. Às vezes o formato é alterado de acordo com o que o autor entende que fica melhor.

O ofício ainda não o ensinou a ninguém, porque na aldeia  não existem miúdos nem graúdos que queiram aprender.

Francisco Pereira não se considera uma artista e não ganha dinheiro com a sua arte.

– Tudo o que tenho feito tem sido dado.

É esse o destino final das peças. É tudo dado. Ao longo dos anos já distribuíu várias peças por familiares e amigos. Entre eles está a colectividade de Outeiro Pequeno, para quem o sr. Francisco já ofereceu várias peças que são leiloadas durante os festejos.

“- Gosto de fazer e tenho prazer em dar” –  é o lema de Francisco Pereira. A esposa, também é artista, mas nas rendas. Com agulhas e linhas executa vários trabalhos que mais tarde oferece também aos familiares.

Francisco e Letícia já completaram 50 anos de casados. Hoje aos 75 e 78 anos respectivamente, ainda partilham pelos familiares e amigos, o fruto dos talentos que possuem, o artesanato.

Sobre Fruto da Notícia

Jornal « Fruto da Notícia »
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s