Festa das Sopas em Vila do Paço

Pelo quarto ano consecutivo a localidade de Vila do Paço realizou um evento inédito com bastante sucesso – a Festa das Sopas, uma iniciativa da Sociedade Filarmónica e Recreativa de Vila do Paço.

Pelas 13 horas do dia 28 de Maio, teve início a III Edição da festa das sopas no recinto das festas. Um almoço com menu único – sopa, mas em bastante quantidade e qualidade à disposição por apenas 5 euros e com direito a tigela, colher e pão. Numa enorme mesa foram colocadas as diversas sopas: Sopa de feijão, couve com feijão, da pedra, feijão verde, canja de galinha, tomate, legumes, maluca, abóbora com feijão, coiratos, alho, surpresa, avó, peixe, juliana, ervilhas com presunto, feijão com nabo de couve, carne, grão, feijão branco e espinafres, campo, caldo verde, queijo, ervilhas, todos, agrião e sopa de massa de bacalhau.

A ideia surgiu pela necessidade de angariar fundos para acabar as obras no recinto, conforme informação recolhida junto de Clotilde Sentieiro. As autarquias locais, freguesia e município não têm dinheiro, pelo que numa reunião de direcção da associação a D. Clotilde avançou com a ideia de pedir uma panela de sopa às pessoas da aldeia. A ideia foi aceite e no presente ano apareceram 35 qualidades de sopas diferentes. Outras iniciativas têm sido concretizadas, nomeadamente com a venda de bolos de massa: “Eu peço uma vez por mês às pessoas e elas dão a farinha, o açúcar e os demais ingredientes para os bolos. É um modo de podermos angariar dinheiro”.

O objectivo da festa das sopas é dar a conhecer a diversidade de sopas que são feitas na aldeia, sem revelar o nome das cozinheiras, porque não se trata de nenhum concurso.

“- Cada pessoa faz a sopa à sua maneira. Há sopas iguais, mas como são feitas por pessoas diferentes, o sabor também é diferente” – refere Clotilde Sentieiro.

Pela segunda vez o célebre cozinheiro chefe António Silva veio prestar homenagem com a sua presença nesta festa. “- É uma honra tê-lo aqui. O pedido foi feito através do senhor Engº. João da Guia de Torres Novas. Como a sopa faz parte da nossa gastronomia, solicitei a sua presença para ele dar a sua opinião e sugestões. O convite foi aceite na primeira vez e este ano uma vez mais a localidade de Vila do Paço o recebeu assim como todos os amigos que fizeram questão de marcar presença” – referiu ainda a D. Clotilde.

No entender da D. Clotilde, esta iniciativa devia alargar-se pelas aldeias vizinhas, fazendo um encontro entre comunidades de modo a que as pessoas se conhecessem melhor. Clotilde Sentieiro é uma mulher que luta pelos benefícios da aldeia:

“- Trabalho e faço trabalhar os outros porque só assim é que se consegue fazer alguma coisa para que as pessoas que vivem na nossa terra se sintam bem e aqueles que nos vêem visitar também”. Para a D. Clotilde é a recompensa do trabalho e do esforço, do suor e também de lágrimas por algumas coisas que aparecem sem serem esperadas.

Com este evento junta o útil ao agradável; fazer a divulgação das nossas sopas e ao mesmo tempo angariar algum dinheiro para acabar as obras: cozinha, salão, casas de banho, churrasqueira e arrecadação junto ao recinto onde decorrem os festejos.

CHEFE  SILVA  VEIO  ÀS  SOPAS

 

 

O Chefe António Silva ilustre cozinheiro, tem 72 anos é natural de Caldelas, no concelho de Amares, a norte da cidade de Braga.

O «Fruto da Notícia» entrevistou o Chefe Silva que esteve presente pelo 2º ano na festa das sopas.

 

Fruto da Notícia (FN) – Qual o benefício das sopas na gastronomia portuguesa?

Chefe silva (CS) – É muito importante, porque os países latinos tomaram a sopa como o prato principal de cada região. Nós os portugueses, quando falamos em sopa, falamos de uma sopa em profundidade, numa sopa consistente,  uma sopa capaz de substituir um almoço ou um jantar (tipo sopa da pedra). Os espanhóis têm o mesmo raciocínio em relação às sopas. Têm algumas sopas importantes na sua alimentação. Os franceses comem sopa e “potage” e não comem mais nada. Os italianos têm por base a sopa “minestra”. E cada província italiana tem receitas próprias de “minestra”. Os belgas também são uns apaixonados por sopa.

 

(FN) – O que acha desta iniciativa da “Festa das sopas” em Vila do Paço?

(CS) – Isto ainda é só uma brincadeira. Um dia vamos levar isto a sério e vamos então ver que toda a gente vai andar à procura da Festa das sopas em todo o lado. Esta iniciativa que agora se faz sazonalmente (uma vez por ano), devia ser feita uma vez por mês, depois uma vez por quinzena e depois uma vez por semana. Devíamos habituar as crianças a comer sopa.

 

(FN) – Mas muitas das crianças não gostam de comer a sopa…

(CS) – O problema é a publicidade das multinacionais (Mc Donald’s e outras mais), são publicidades tão intensas e maciças que desviam a atenção das crianças com bonecos de plástico e outros brindes. Praticamente, as crianças vão lá por causa dos bonecos de plástico. É um erro derivado pela concorrência do mercado.

 

(FN) – Que conselho é que dá a todas crianças e jovens que fazem caretas à sopa?

(CS) – É bom comer sopa! Experimentem! Depois ninguém se vai meter num certo tipo de alimentação sem conselho médico. Tal como existem os médicos de família, devia haver os nutricionistas de família em Portugal. É pena! Estamos à espera que os outros tenham para os termos também. Experimentem em comer sopa e vão ver que se sentem bem. A sopa é um alimento completíssimo: tem legumes frescos, secos, carnes (às vezes). Tem tudo!

 

(FN) – Como é que se consegue eleger uma boa sopa?

(CS) – Uma boa sopa pode-se eleger segundo a disposição de qualquer pessoa que está a julgar. Muitas vezes podem pensar que o júri é mecânico. O júri é humano. Quem faz o julgamento é humano. Também depende da vontade de comer que tem para dar uma nota alta ou baixa. É um julgamento segundo a sua consciência.

 

(FN) – Para além dos ingredientes uma sopa depende também das mãos de quem a faz. Quem é melhor na cozinha, o homem ou a mulher?

(CS) – É indiferente… Houve tempos que eram os homens. Mas as sopas quem as fazia melhor eram as mulheres.

 

(FN) – Há quantos anos é que é cozinheiro?

(CS) – Estou na cozinha há 54 anos. Nunca me cansei. Sinto-me bem e gostei muito desta profissão e agora já não é tempo de aprender outra coisa.

 

(FN) – Como é que veio parar à festa das sopas a Vila do Paço?

(CS) – Através do meu amigo, João da Guia. Ele é que me tem trazido para Torres Novas e me incentiva para vir. E eu sinto-me bem.

 

(FN) – O concelho de Torres Novas é rico em alguns produtos…

(CS) – Venho todos os anos ao concelho de Torres Novas buscar o azeite da oliveira lentrisca/ verdeal, a laranja do Pafarrão, frutos secos da região e a aguardente de figo para a confecção do Bolo-Rei, pelo Natal. Fica muito bem no Bolo-Rei a aguardente de figo do concelho torrejano. É a que eu aconselho. Porque é natural, é de frutos e levemente aromática. É um concelho rico em azeite e outros bons produtos que deviam de ter certificado de qualidade.

“HAVENDO  SOPA,  A  CASA  ESTÁ  GOVERNADA…”

 

O Engº João da Guia, grande defensor da nossa gastronomia, referiu ao «Fruto da Notícia» os benefícios de comer sopa 

 

Havendo sopa, quer ao almoço quer ao jantar, com mais qualquer coisa a casa está governada em termos gastronómicos e regulada em termos económicos. As sopas são de tal modo ricas porque na sua base estão os vegetais com as proteínas, vitaminas, sais minerais e todo o valor calórico. Um enchido, um osso ou um bocadinho de carne para dar o gosto torna-as ricas (temos a sopa da pedra, a sopa rica do campo que é a mais rica do nosso concelho). A sopa do campo é a antiga sopa das chouriças (leva tudo o que é enchido: preta, farinheira, morcela e carne). Depois os vegetais: couve, nabo, feijão. É a sopa que vem dar origem à sopa da pedra. É muito rica esta sopa, porque quem a come não é preciso comer mais nada.

É pena as crianças não serem habituadas desde os bancos da escola a serem educadas para comerem sopa. Felizmente, o Governo está actualmente a dar alguma atenção ao querer correr com as batatas fritas e coisas gulosas, sumos, gaseificados, colas e outras porcarias congéneres que só entram nos nossos hábitos alimentares e das crianças por força da publicidade. Há uns anos atrás, a música country, folk e rock também entrou cá devido a uma enorme campanha que a América fez que parou a “Order Brothers” só para fazer publicidade a esse tipo de música. Hoje toda a criança fala inglês, come comida de plástico do Mc Donald’s e de outros congéneres como as pizzas. Estamos a desabituá-las de comer a nossa refeição tradicional com base na sopa. Há que voltar aos primórdios, porque as sopas são ricas e fazem uma correcção à alimentação. Todo o homem é fruto do ambiente em que nasceu e do que come. A comida americana com sacos de batatas de fritas, molhos e coca-cola não é refeição, porque vai dar uma pessoa doente no futuro. Os americanos sabem disso, mas ganham muito dinheiro, com muita publicidade e marketing.

Agora temos que ser nós a dizer desde os bancos da escola às nossas crianças o que é bom de facto, o que temos de bom para sermos bons portugueses e boas portuguesas.

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